94 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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garagem. Tínhamos pressa de chegar, mas Deus tinha resolvido que não
chegaríamos a horas de ver o fenómeno solar, que a todos tanto
impressionou.
Pouco depois de sairmos de Torres Novas, sucedeu-nos um desastre
de que só milagrosamente escapámos. Enterrou-se-nos o carro na beira
da estrada, onde o terreno era falso, e este começou a desabar pouco a
pouco. Uma roda do jogo dianteiro já estava no ar, e a de trás não se
achava a mais de um palmo afastada do abismo, e mesmo esse pouco
terreno parecia querer desabar também. Saímos do carro, e julgámos
não o poder tirar dali, e demos graças a Deus por termos escapado.
Engatam-se dois bois ao carro e ao primeiro arranco, fica pior do que
estava. O carro é muito grande e muito pesado, vão-se portanto buscar
mais bois, e engatam-se-lhe quatro. O mais pequeno movimento falso
faria rolar o carro por uma ribanceira de uns três metros de altura,
arrastando na queda alguns homens. É grande o perigo, invocámos a
Senhora do Rosário e dá-se o sinal para que todos puxassem na mesma
direção. Um só arranco, e o carro desliza lindamente para o meio da
estrada. Passámos nisto uma hora e quarenta minutos, em que estivemos
parados na estrada sob uma chuva miudinha e persistente, e com os pés
encharcados. Estava constipadíssima e muito rouca, e apesar de ter
apanhado muita chuva e de ter humedecido muito os pés, não piorei,
antes pelo contrário, voltei para casa menos rouca.
Outra graça me fez Deus. Sou de ordinário muito pouco paciente,
pois apesar de ter um grande ferro de ver que não chegava a horas, não
me impacientei. Antes pelo contrário, senti-me sempre conformada e
bem disposta.
Continuámos a nossa jornada, e chegámos finalmente à Fátima, mas
só meia hora depois de se ter dado o maravilhoso fenómeno, hoje já de
todos conhecido pelas lindas descrições publicadas pelo “Século” e
outros jornais.
Que imenso ferro não o ter eu visto!
Chegada à Fátima procuro ver pessoas conhecidas, para trocar
impressões. Todos me dizem o mesmo, todos viram... Mas viram o
quê? – lhes pergunto: “Vimos o sol, coberto como que por uma chapa
de prata, num constante movimento de rotação, despedindo raios
vermelhos, amarelos, roxos, e parecendo desprender-se do Céu e
aproximar-se da terra.”
Falei com o povo, dizia-me o mesmo, posto que, por outras palavras.
Diziam-me ter visto Nossa Senhora, S. José, o Menino Jesus, e que sei