90 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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só teria lugar do meio dia para a uma, as crianças só viriam perto dessa
hora. Alegámos que sendo já perto de uma hora, as crianças já deveriam
ali estar. “Por que horas se regulam?” (pergunta-nos uma mulher do
povo). É pelas modernas? ... Nem a Senhora nem as meninas se regulam
por elas, mas sim pelas antigas, que são as verdadeiras”. – Enquanto
esperávamos fomos conversando com o povo e indagando dos que já
nos meses anteriores ali tinham ido, o que costumava passar-se.
Disseram-nos que à hora indicada o sol se encobriria por leves nuvens,
e que um nevoeiro envolveria o arbusto sobre o qual, Nossa Senhora,
descendo de uma nuvem, pousaria a falar com as crianças.
A pouco e pouco fomos encontrando entre a multidão várias pessoas
conhecidas, e até ainda nossas parentas. Juntámos-nos todas, fomos
colhendo informações e comentando-as, achando umas algo
extraordinárias e outras inverosímeis.
Nesta altura aparece um homem dizendo-nos que as crianças não
viriam, porque tinham sido presas pelo administrador do concelho e por
ele levadas para Vila Nova de Ourém. De princípio, ninguém acredita,
julga-se que se trata de uma brincadeira de mau gosto, da parte do
homem, mas é tal a intimativa com que ele o afirma, que uma Senhora
se oferece para, no seu auto ir a Fátima, saber o que lá se passara.
Voltou, e no seu rosto, vemos todos que é verdadeira a notícia. O
administrador oferecendo-se para levar as crianças para a Cova da Iria
depois de as ter interrogado, leva-as traiçoeiramente presas para Vila
Nova de Ourém. Com que direito? O que tinham feito as crianças para
serem presas?... Nada, era a perseguição que principiava.
Todos protestam, todos se indignam, mas é um protesto ordeiro, e,
apesar de ali estar muita gente, umas 5 a 6 mil pessoas, ninguém pensa
em se revoltar, em lutar. Eram crentes, gente cheia de fé, e não brigões
que ali se encontravam.
Das pessoas presentes, muitas pensam em ir-se embora, mas, do
povo sobretudo, sai este grito “Fiquemos e esperemos, ainda não chegou
a hora, e se isto é coisa do Céu há de manifestar-se, mesmo apesar de
as crianças terem sido presas, pois contra o poder de Deus e da Virgem,
a autoridade não pode nada”.
Admirámos a fé do povo, e todos ficámos aguardando cheios de
ansiedade a hora anunciada.
Como nos não lembrávamos dos 37 minutos já de há muito
adiantados, às 2 horas pensávamos já todos em nos retirar, pensando
que, por estarem ausentes as crianças, nada de anormal se passaria.