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d !""" Alteram-se os grupos que cantam os louvores da Virgem,
e uma lebre, espavorida, que galga matagal em fora, apenas desvia as
atenções de meia duzia de zagaletes que a alcançam e prostram à
cacetada...
E os pastorinhos? Lúcia, de 10 anos, a vidente, e os seus pequenos
companheiros, Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, ainda não chegaram. A
sua presença assinala-se talvez meia hora antes da indicada como sendo
a da aparição. Conduzem as rapariguinhas, coroadas de capelas de
flores, ao sítio em que se levanta o pórtico. A chuva cai incessantemente
mas ninguém desespera. Carros com retardatários chegam à estrada.
Grupos de fiéis ajoelham na lama e a Lúcia pede-lhes, ordena que fechem
os chapéus. Transmite-se a ordem, que é obedecida de pronto, sem a
mínima relutância. Há gente, muita gente, como que em êxtase; gente
comovida, em cujos lábios secos a prece paralizou; gente pasmada,
com as mãos postas e os olhos borbulhantes; gente que parece sentir,
tocar o sobrenatural... A criança afirma que a Senhora lhe falou mais
uma vez, e o céu, ainda caliginoso, começa, de súbito, a clarear no alto;
a chuva para e pressente-se que o sol vai inundar de luz a paisagem que
a manhã invernosa tornou ainda mais triste...
A hora antiga é a que regula para esta multidão, que cálculos
desapaixonados de pessoas cultas e de todo o ponto alheias às influências
místicas computam em trinta ou quarenta mil criaturas... A manifestação
miraculosa, o sinal vísivel anunciado está prestes a produzir-se –
asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espetáculo único
e inacreditável para quem não foi testemunha dele. Do cimo da estrada,
onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de
pessoas, a quem escasseou valor para se meter à terra barrenta, vê-se
toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de
nuvens, no zénite. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível
fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-
-ia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se
levanta, e aos espetadores que se encontram mais perto se ouve gritar:
– Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!
Aos olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude nos transporta
aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça
descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos
movimentos bruscos fora de todas as leis cósmicas – o sol “bailou”,
segundo a típica expressão dos camponeses. Empoleirado no estribo
do auto-omnibus de Torres Novas, um ancião cuja estatura e cuja
fisionomia, ao mesmo tempo doce e enérgica, lembram as de Paul
Doc. 13 1917-10-15