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c ente cerca de duas léguas por não haver lugar para nós na
diligência e estarem, desde muito, afreguezadas as carriotas que
aguardavam passageiros. Pelo caminho, topámos os primeiros ranchos
que seguiam em direção ao local santo, distante mais de vinte quilómetros
bem medidos. Homens e mulheres vão quase todos descalços – elas
com saquitéis à cabeça, sobrepujados pelas sapatorras; eles abordoando-
-se a grossos vara-paus e cautelosamente munidos também de guarda-
-chuva. Dir-se-iam, em geral, alheados do que se passa à sua volta,
num desinteresse grande da paisagem e dos outros viandantes, como
que imersos em sonho, rezando numa triste melopeia o terço. Uma mulher
rompe com a primeira parte da avé-maria, a saudação; os companheiros,
em coro, continuam com a segunda parte, a súplica. Num passo certo e
cadenciado, pisam a estrada poeirenta, entre pinhais e olivedos, para
chegarem antes que se cerre a noite ao sítio da aparição, onde, sob o
relento e a luz fria das estrelas, projetam dormir, guardando os primeiros
lugares junto da azinheira bendita – para no dia de hoje verem melhor.
À entrada da vila, mulheres do povo a quem o meio já infetou com o
vírus do ceticismo, comentam, em tom de troça, o caso do dia:
– Então vais ver amanhã a santa?
– Eu, não. Se ela ainda cá viesse!
E riem-se com gosto, enquanto os devotos prosseguem indiferentes
a tudo o que não seja o objetivo da sua romagem. Em Ourém só por
uma amabilidade extrema se encontra aposentadoria. Durante a noite,
reunem-se na praça da vila os mais variados veículos conduzindo crentes
e curiosos sem que faltem velhas damas vestidas de escuro, vergadas já
ao peso dos anos, mas faiscando-lhes nos olhos o lume ardente da fé
que as animou ao ato corajoso de abandonar por um dia o inseparável
cantinho da sua casa. Ao romper da alva, novos ranchos surgem
intrépidos e atravessam, sem pararem um instante, o povoado, cujo
silêncio quebram com a harmonia dos cânticos que vozes femininas,
muito afinadas, entoam num violento contraste com a rudeza dos tipos...
O sol nasce, mas o cariz do céu ameaça tormenta. As nuvens negras
acastelam-se precisamente sobre as bandas de Fátima. Nada, todavia,
detém os que por todos os caminhos e servindo-se de todos os meios
de locomoção para lá confluem. Os automóveis luxuosos deslizam
vertiginosamente, tocando as buzinas; os carros de bois arrastam-se
com vagar a um lado da estrada; as galeras, as vitórias, os caleches
fechados, as carroças nas quais se improvisaram assentos vão ajoujados
a mais não poderem. Quase todos levam com os farnéis, mais ou menos
modestos, para as bocas cristãs a ração de folhelho para os irracionais
Doc. 13 1917-10-15