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borbotões do seu capuz de oleado porque a chuva continuava a caír
teimosamente...
O FRUTO PROIBIDO
Volto, e ia dirigir-me a casa do prior cuja varanda à antiga portuguesa
fora também assaltada pelos que procuravam abrigar-se da chuva,
quando vejo a minha companheira da manhã, franzina, delicada com os
seus olhos azuis e cismadores, feita num pinto, chapinhando na lama,
mas sempre alegre e despreocupada, como se estivesse confortavelmente
assentada nalgum tea elegante, bem abrigada e enroupada e não debaixo
daquele dilúvio.
E mostra-me uma estampinha em gravura, da Senhora de Fátima...
– Está ali! diz ela, e aponta-me a sacristia da Igreja!...
E depois, baixinho, como que em segredo, rindo muito, com uma
pontazinha de malícia a iluminar-lhe os grandes olhos azuis como o
firmamento, acrescenta:
– E agora vou lá baixo!... Ensinem-me um atalho por onde se pode
ir!... Atravessa-se o campo!... Mas hei de ir!...
E lá abalou debaixo da chuva, encharcada até aos ossos, chapinhando
na lama, mas sempre risonha, sempre feliz contente por ir lá baixo e
pregar assim uma pirraçasinha aos Herodes da governança!...
– Oh! as mulheres quando elas querem!...
[67] A FÉ DO CARVOEIRO!
Entrei na sacristia a ver o que é que estava ali.
Era uma imagem da Senhora de Fátima lindíssima na verdade, que
um devoto mandara de propósito fazer.
E porque a intolerância das autoridades a não deixava colocar no
nichozinho da Cova da Iria, por isso a pusera ali para que os fiéis,
desfilando perante ela, a vissem e admirassem!...
E era de ver a devoção com que muita daquela pobre gente lhe
rezava!
Eu não sei em verdade se no culto da gente humilde e ignorante,
entrará um pouco de paganismo ou de superstição, que é inata ao coração
do homem, desde a queda no paraíso terreal, mas como é admirável de
ingenuidade e de simplicidade a forma como, por exemplo, esta gente
reza o seu terço!
Era o célebre Pasteur que dizia de si próprio ter a fé de um bretão,
mas que, se vivesse mais tempo viria a ter a fé duma bretã, ou como
nós dizemos cá, a fé do carvoeiro!...
Os episódios maravilhosos de Fátima