612 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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e venerada em espírito, sem nenhuma dessas exibições espetaculosas e
barulhentas de arraial.
Oração comunhão e penitência.
Isto e só isto, é o que ela quer!
Fazendo a proibição as autoridades satisfazem inconscientemente os
desejos da Senhora!
CHUVA E PEIXE ESPADA
A chuva caía agora a potes outra vez...
E todos procuravam refugiar-se ou debaixo dos carros, ou debaixo
do alpendre que na Igreja o apertão era já enorme.
Nisto vejo eu a guarda republicana de espadas desembaínhadas
descarregando pranchada a torto e a direito nalguns pacíficos camponeses
que de guarda chuva aberto olhavam melancolicamente para aquilo tudo...
e que surpreendidos da agressão inesperada, desatavam a correr sem
saber por que eram agredidos .
Alguém se dirige aos guardas a indagar do que se trata... Queixam-
-se de que um homem do povo, querendo passar à força e, como o
impedissem disso, os ameaçava, e daí aquele alvoroto em que pagava o
justo pelo pecador, como sucede quase sempre.
Explicado o caso e restabelecida a tranquilidade, converso com alguns
camponeses a quem prudentemente aconselho que se abstenham de
passar, visto que é mais meritória a obediência a ordens mesmo injustas
desde que não ofendam a nossa consciência do que a resistência
temerária.
Um dos guardas republicanos, diz-me então num assomo de
sinceridade:
– Se o senhor soubesse o que me custa estar aqui!
Cumpro ordens e cumpro-as à risca: mas creia que cá por dentro,
tudo isto me revolta!
Eu sou religioso, senhor, e não compreendo que uti-[66] lidade haja
em estar a proibir essa pobre gente de ir rezar lá baixo!... Isto até dá
vontade de chorar!...
– Tenho uma irmã que foi à Senhora de Fátima, que lhe salvou a
vida!
E de facto, pela cara tisnada do pobre guarda que ali estava cumprindo
ordens, bem contra a sua vontade, deslizava vagarosamente uma gota