608 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
À ÁÂÃÄÅ ÆÅÇÈÅ ÈÉ ÊÂÆËÌÅÍ ÎÌÏÏÂÅÁ ÌÆ ËÌÅÐÌÆ ÁÅÂÆ ÐÉÏÏÌÏÂÆÐÅÆ ÆÌËÏÉ o
caso de Fátima, dizendo-se que era inútil a viagem porque havia ordens
terminantes para não deixar passar ninguém de Vila Nova de Ourém.
Por esse por motivo, muitos que tinham combinado vir comigo não
vieram, mas eu teimei e vim, quando mais não fosse, para ver o que
havia de verdade.
Ao mesmo tempo que eu, chegaram duas senhoras, uma nova ainda,
elegante e formosa com uns grandes olhos cor de miosótis, filha de um
antigo ministro da monarquia, e a outra de aparência distinta, já de certa
idade, e que me consta ser aparentada com uma das famílias mais
conhecidas da Beira, e nomeadamente da Guarda.
Coitadas! Debaixo daquela chuvada toda, que até fazia lembrar o
versículo genesíaco:
– Et apertae sunt cataractae aquarum et fontes abyssi magni.
Não se queixavam, tamanha era a sua fé e entusiasmo, e apenas as
preocupava a ideia de que as não deixariam chegar ao local das
aparições!...
[61] A ARCA DE NOÉ
A muito custo lá conseguimos chegar a uma estalagenzita que fica
mesmo em frente da igreja e que dá pelo nome de Hospedaria da Maria
Joana, e aí descansámos um pouco, num canapé tremelicante, até romper
o dia, pois a respeito de quartos era coisa que não havia.
Manhãzinha cedo, mal luziu o buraco, sentimos um grande tropel de
cavalos.
Corremos à janela!
Era um esquadrão de cavalaria da guarda republicana, que marchava
a todo o galope para a Fátima.
– Então sempre seria verdade?
Inquirimos da criada da locanda o que havia... que se dizia por lá...
– A mesma incerteza ... Boatos!... Boatos!
Que havia infantaria... cavalaria... metralhadoras... não sei que mais...
Uma ofensiva em regra!
– Mas porquê, Santo Deus?!...
Ninguém sabia explicar!... dizia a mulherzinha.
– Uma coisa já conseguiram eles:
De Ourém não vai ninguém à Fátima. Estavam todos os carros
alugados a 40$000 cada um. Pois foram todos dispensados com grande
zanga do alquilador que é republicano esturrado, e que não percebe
porque razão se pode proibir a um cidadão pacífico de ir em passeio
onde muito bem lhe apeteça!