606 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
© Olhe madrinha! Eu já não me queixo! Nossa Senhora tornou-
-me a aparecer, dizendo que em breve me viria buscar – e me tirava
já as dores!
E de facto, desde esse dia até que morreu, segundo se diz, não tornou
a queixar-se nem deu mostras de sofrimento.
Sucedendo a madrinha passar ou sentar-se ao pé da cama, não
longe do sítio em que a Jacinta disse ter visto a Senhora – exclamou:
– Tire-se daí, madrinha, que aí esteve a Senhora!...
E a mesma preocupação se lhe apresentava quando alguma enfermeira
passava pelo mesmo sítio.
Como fossem ao hospital algumas pessoas, imodestamente vestidas,
ou vê-la a ela, ou ver outros doentes, e algumas enfermeiras
apresentassem certos exageros no traje, – dizia indicando essas pessoas
e referindo-se a determinados certos enfeites e decotes:
– Para que serve aquilo! Se soubessem o que é a eternidade!...
– Falando de alguns médicos que ela julgava serem incrédulos –
lastimava-os dizendo:
– Coitados, mal sabem eles o que os espera!
Afirmava a vidente que Nossa Senhora lhe havia comunicado: que o
pecado que leva mais gente à perdição — era o pecado da carne,
que era preciso deixarem-se de luxos, que não deviam obstinar-se no
pecado como até aqui; que era preciso fazer muita penitência.
E parece que a Senhora ao dizer isto se mostrava muito consternada,
– porque a pequena acrescentava:
[59] – Ai! Eu tenho muita pena de Nossa Senhora! Tenho muita
pena!
Enquanto esteve em casa, antes de ir para o hospital, vivia em
companhia doutra pequenita, – a quem ela recomendava muitas vezes –
que fosse muito obediente, que não fosse preguiçosa e que nunca
faltasse à verdade.
Pouco antes de morrer – perguntando-lhe se queria tornar a ver a
mãe, respondeu: que a família dela durava pouco tempo e que em
breve se encontrariam no céu.
Disse mais que Nossa Senhora – devia ainda aparecer outra vez,
mas não a ela, porque com certeza morria segundo ela lhe disse.
Pediu licença para se confessar, muito embora se tivesse confessado
e comungado antes de entrar para o hospital.
Foi confessá-la – o rev.mo prior dos Anjos, Dr. Pereira dos Reis, mas
não teve tempo de lhe dar a comunhão.