4 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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em causa o catolicismo romano como religião oficial. Contudo, no
ajustamento da Igreja à nova sociedade, convertia os seus ministros em
agentes de estruturação social, comprometidos em várias atividades de
caráter cívico e enquadrados no funcionalismo público. Tratava-se de
uma visão instrumental da Igreja, manietada aos interesses do Estado,
incompreendida na sua missão religiosa, diminuída nos seus meios e
atingida na sua capacidade de organizar e influenciar autonomamente a
sociedade. Numa continuada atividade legislativa de caráter regalista,
foram suprimidos os dízimos, abolido o foro eclesiástico, eliminados os
padroados, extintas as ordens religiosas e nacionalizados os seus bens.
O processo de desamortização dos bens da Igreja estender-se-ia às
colegiadas, aos passais, aos mosteiros femininos. Os bispados que o
governo queria suprimir foram permanecendo vacantes, como pressão
sobre a Santa Sé para o necessário assentimento. Os restantes também
tardaram muitas vezes em ter bispo, dada a resistência papal aos nomes
apresentados pelo governo. Internamente, as nomeações mantiveram-
se controladas, nomeadamente através do concurso documental exigido
pelo governo como forma de eliminar a intervenção episcopal na
avaliação dos candidatos. Paralelamente, a Igreja e os seus ministros
foram vivendo no meio de dificuldades económicas, após a supressão
dos dízimos e o adiamento sucessivo da dotação eclesiástica, só
governamentalmente acenada como contrapartida para outras
negociações.
Enquanto aprendia a viver no quadro constitucional, a Igreja começava
a lançar as bases da recuperação religiosa, patente nas iniciativas ligadas
ao associativismo católico, iniciado nos anos 40 em Lisboa, com a criação
da Sociedade Católica, e ressurgido no Porto dos anos 70, com o I
Congresso Católico e a Associação Católica, para se estender ao país.
Era o tempo da organização do laicado numa perspetiva eminentemente
religiosa, distanciada das clivagens políticas, que tinham dividido os
católicos. Prescindindo da instrumentalização da religião pela política,
que caraterizara miguelistas e liberais, unia-os uma genuína preocupação
pelo destino e pela revitalização do catolicismo dentro do regime
constitucional vigente. O movimento católico abria-se aliás, pelo menos
em parte dos seus membros, à aceitação de qualquer forma de regime
político, desde que respeitadora da Igreja, antecipando e sintonizando
com o ralliement de Leão XIII no face a face com a república francesa.
A evidenciar a recomposição do catolicismo, renascia das cinzas,
também na segunda metade do século, a vida religiosa, depois da