592 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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frequência se repetem ali, venham a transformar-se, com o decorrer do
tempo, em vãos e ruidosos folguedos de arraial. Se a autoridade
eclesiástica, diziam essas pessoas, aliás respeitosamente e sem espírito
de crítica, tivessem alguma ingerência no desenrolar dos acontecimentos
de Fátima, não teria permitido essa descabida manifestação de regozijo
que representava uma irreverência e um desacato, ou pelo menos teria
impedido que ela se realizasse tão perto do venerando padrão dos
sucessos maravilhosos. Com um caderno e um lápis na mão dirijo-me
ao homem que deitara os foguetões e pergunto-lhe o nome. Ele perfila-
-se, muda de cor, formaliza-se todo e responde-me num tom sacudido
e breve: “Se o senhor é autoridade e vem para me prender por ter
deitado os foguetões sem licença, não me importo de pagar a multa ou
ir para a cadeia. Cumpri a minha promessa e agora estou por tudo”.
Tranquilizo-o sem demora, assegurando-lhe que o meu intuito é
simplesmente saber se tinha dado a salva de vinte e um tiros em
cumprimento de alguma promessa. Então recobra ânimo, a sua fisionomia
alegra-se, e, cheio de entusiasmo, põe-se a narrar, numa linguagem singela
mas eloquente, a sua tocante história.
Proprietário de uma fábrica de pólvora e fogo de artifí-[40]cio numa
importante freguesia do concelho do Porto de Mós, vivia com a sua
mulher e filhos entregue às ocupações da sua profissão e gozando de
perfeita saúde. No princípio do mês de julho último começou a sofrer
duma grave doença gastrointestinal. Os socorros da medicina de nada
lhe valeram. De dia para dia o seu estado agravava-se cada vez mais.
Debalde os distintos facultativos Padrão, da Batalha, e Neves, de
Alcobaça prodigalizaram à sua cabeceira recursos e desvelos do seu
saber e da sua experiência. Perdidas todas as esperanças humanas da
cura dos seus males, receando deixar, com a sua morte, os filhos na
miséria, volta-se, cheio de confiança, para Aquela que é justamente
chamada a Consoladora dos Aflitos e a Saúde dos Enfermos e invoca o
seu patrocínio, prometendo, se obtivesse a cura, ir deitar em Fátima, no
lugar das aparições, uma salva de vinte e um foguetes morteiros, cada
um do preço de um escudo, preparados de propósito para esse fim.
Feita a promessa, principia a sentir melhoras e pouco tempo depois
acha-se completamente restabelecido. Veio à Fátima acompanhado da
mulher, da sogra, de um filho e um sobrinho, agradecer essa graça a
Nossa Senhora e cumprir a promessa.