590 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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interminável vaga humana.
Dir-se-ia que ela tem a intuição viva e profunda de que o solo que
pisa é sagrado e de que uma atmosfera de sobrenatural a envolve e
satura. De todas as estradas, [37] caminhos e atalhos aflui gente. Mas
eis que a duzentos metros, do lado direito da estrada, se avista no fundo
dum vale, uma multidão imensa. Estamos pois, no célebre local,
vulgarmente chamado Cova da Iria, onde se verificaram as aparições
da Rainha do Céu. A linda capelinha ergue-se, já perto de nós, ao lado
da azinheira, em que passaram os pés da celeste visão, ostentando as
suas paredes de uma alvura puríssima e erguendo para o alto, como
uma súplica perene, o seu rústico, mas gracioso telhado de telha
encarnada.
Em torno dela estão ajoelhadas, em fervorosa prece, mais de
quinhentas pessoas. Aqui e acolá, dum e doutro lado da estrada e por
toda a vasta encosta, à sombra das carvalheiras, não se veem senão
veículos de todas as espécies e numerosos grupos de romeiros a
descançar ou a comer os seus farnéis, num silêncio e gravidade inspirados
pela devoção e pelo respeito do local.
CANTANDO E REZANDO!... BENDITO E LOUVADO
SEJA!...
É quase meio-dia. Por entre nuvens, que sem cessar perpassam no
firmamento o sol aparece de quando em quando e dardeja sobre as
nossas cabeças os seus raios vivíssimos. Um grupo de peregrinos vem-
-se aproximando processionalmente do local. São cerca de cem pessoas:
homens, mulheres e crianças. Alguns homens vestem opas, conduzindo
um deles à frente um pendão em que se vê um painel com a imagem da
Santíssima Virgem. Enquanto caminham, rezam devotamente o terço do
rosário, em voz alta. De espaço a espaço, nos intervalos dos mistérios,
um coro de vozes argentinas entoa maviosos cânticos em honra de Nossa
Senhora. Pergunto donde vem aquela procissão e dizem-me que é do
lugar das Covas, limite de Carreirancha, freguesia do Alqueidão da Serra.
A procissão pára junto da capela. Alguns peregrinos entram nela e um
deles reza o terço alternadamente com os circunstantes. Parte da multidão
está de joelhos, a outra parte de pé. A todo o momento chega gente.
Ponho-me a percorrer o local. Um pouco afastado da multidão, um
indivíduo, [38] de aspeto venerando, modestamente vestido, está sentado
no chão, de mãos postas, desfiando as contas do seu rosário, sem prestar
atenção ao que se passa em torno dele.