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acontecimento inaudito produziu em toda a imprensa portuguesa, que
dele se ocupou largamente.
Na estrada de Vila Nova de Ourém à povoação de Fátima, que fica
a doze quilómetros de distância, o movimento, logo ao sair da vila, é
extraordinário. Os habitantes assomam às janelas ou aparecem nas
varandas ou às portas de suas casas para contemplar o espetáculo
interessante e comovente que se depara a seus olhos maravilhados. Veem-
-se numerosos grupos de pessoas, umas a pé, outras a cavalo. Veículos
de todos os tamanhos e de todos os modelos pejam literalmente a estrada.
Aqui são homens e mulheres do povo que caminham vagarosamente e
em silêncio. Além é uma família de distinção que vai comodamente
instalada num trem de luxo. Mais adiante um [36] ilustre oficial do exército
guia uma charrete, que conduz algumas pessoas de sua família.
Depois passa um automóvel, que sobe rapidamente a encosta. Os
grupos de peregrinos a pé, as filas de carros, as tradicionais burricadas,
as fiadas intermináveis das bicicletas, os carros de bois, os trens e os
automóveis isolados circulam cada vez em maior número, à medida que
o veículo que me transporta, se aproxima vertiginosamente da cumeada
da serra.
São onze horas e meia quando chego ao pé da igreja paroquial de
Fátima.
Bastantes peregrinos, fatigados do caminho, descansam à beira da
estrada, perto da igreja. Faltam ainda três quilómetros para terminar a
minha viagem, junto da modesta capela, ereta ao lado da azinheira
sagrada. No resto do percurso, o movimento de peões, cavaleiros, trens
e automóveis é assombroso. Os peregrinos das povoações mais
próximas, satisfeitas as exigências da sua piedade já vão regressando
aos seus lares para se entregarem aos trabalhos do campo, que se
encontram então na sua atividade, especialmente a vindima e a apanha
do figo.
Outros retiram, porque são de longe, tendo perdido a noite na viagem.
Fizeram a sua visita, cumpriram as suas promessas e voltam para
suas casas, porque não foi a curiosidade, mas só o dever e a devoção o
que os atraiu àquela estância privilegiada.
Achamo-nos neste instante no alto da serra. Àquela hora da manhã e
naquela altitude elevada, a temperatura é ainda, como não podia deixar
de ser em tal estação, extremamente baixa: sente-se frio. O side-car em
que viajo tem dificuldade em abrir caminho por entre a mole imensa de
povo, que enche a estrada. A buzina toca sem cessar e a marcha do
veículo até então vertiginosa, afrouxa consideravelmente.
Os episódios maravilhosos de Fátima