582 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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por intermédio de uma prova sensível a todos, a infinita bondade e a
omnipotência de Deus...
Foi assim que, no dia célebre e tão ansiado, afluíram de perto e de
longe a Fátima, arrostando com todos os embaraços e todas as durezas
das viagens, milhares e milhares de pessoas, umas que palmilharam léguas
ao sol e à chuva, outras que se transportaram em variadíssimos veículos,
desde os quase pré-históricos até os mais recentes e maravilhosos
modelos de automóveis, e ainda muitíssimas que suportaram os
incómodos das terceiras classes dos comboios, dentro dos quais, para
percorrer hoje relativamente pequenas distâncias, se perdem longas horas
e até dias e noites! Vi ranchos de homens e de mulheres, pacientemente,
como enlevados num sonho, dirigirem-se, de véspera, para o sítio famoso,
cantando hinos sacros e caminhando descalços ao ritmo deles e à
recitação cadenciada do terço do Rosário, sem que os importunasse,
os demovesse, os desesperasse, a mudança quase repentina do tempo,
quando as bátegas de água transformaram as estradas poeirentas em
fundos lamaçais e às doçuras do outono sucederam, por um dia, os
aspérrimos rigores do inverno... Vi a multidão, ora comprimida à volta
da pequenina árvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para
os guardar como relíquias, ora espraiada pela vasta charneca que a
estrada de Leiria atravessa e domina e que a mais pitoresca e heterogénea
concorrência de carros e pessoas atravancou naquele dia memorável,
aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturais, sem temer
que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a
imponência... Vi que o desalento não invadiu as almas, [27] que a
confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas
contrariedades, que a compostura da multidão em que superabundavam
os campónios foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas,
tiveram a acolhê-las as demonstrações do mais intenso carinho por parte
daquele povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado ao
aproximar--se a hora do “milagre”, a hora do “sinal sensível”, a hora
mística e suspirada do contacto entre o céu e a terra...
E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante
do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma
obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda
de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora
pré-anunciada, deixa de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o
astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite aparecer e começar
dançando num bailado violento e convulso, que grande número de
pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores