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Numerosos e interessantes relatos do chamado “milagre de
Fátima” foram publicados pela imprensa periódica e em folhetos
na segunda quizena de outubro de 1917 e nos dois meses que se lhe
seguiram. Apesar de ter tido a ventura de presenciar os
acontecimentos assombrosos do dia 13 de outubro de 1917 e de
poder por esse motivo narrá-los minuciosamente, prefiro reproduzir
aqui dois relatos desses acontecimentos redigidos por escritores
insuspeitos, um deles inédito, devido à pena cintilante do espírito
inteligente e cultíssimo do Sr. Dr. José Maria de Proença de Almeida
Garrett, que se dignou fazê-lo a meu pedido dois meses depois, e o
outro da autoria do consagrado jornalista Sr. Avelino de Almeida e
publicado no numero 610, 2ª serie, de “A Ilustração Portuguesa”.
O relato do Sr. Dr. Almeida Garrett é do teor seguinte:
“Vou relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem
a verdade o que vi em Fátima no dia 13 de outubro de 1917.
As horas a que me referirei são as que nessa época marcavam
oficialmente o tempo segundo a determinação do governo que unificara
a nossa hora com a dos países beligerantes. Faço isto para maior verdade
pois me não era fácil designar com precisão o momento em que o sol
alcançou o zénite.
Cheguei ao meio-dia. A chuva que desde manhã caía miúda e
persistente, tocada de um vento agreste, prosseguia, irritante, na ameaça
de querer tudo liquifazer.
[21] O céu baço e pesado tinha uma cor pardacenta prenhe de água,
prenúncio de chuva abundante e de longa duração.
Quedei-me na estrada, ao abrigo da capota do automóvel e um pouco
sobranceiro ao local que diziam ser o da aparição, não ousando meter-
-me ao lamaçal barrento e pegajoso do campo frescamente lavrado.
Estaria a pouco mais de cem metros dos elevados postes que uma tosca
cruz encimava vendo distintamente em redor deles o largo círculo de
gente que, com os guarda-chuvas abertos, parecia um vasto sobrado
de broquéis.
Pouco depois da uma hora chegaram a este sítio as crianças a quem
a Virgem (garantiam elas) marcara lugar, dia e hora da aparição. Ouviam-
-se os cânticos entoados pelo povo que as cercava.
Numa determinada altura esta larga massa, confusa e compacta,
fechou os guarda-chuvas e descobriu-se num gesto que devia ser de
humildade ou respeito mas que me deixou surpreso e admirado porque
Os episódios maravilhosos de Fátima