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Tinha oito anos quando fez a sua primeira comunhão. A mãe, tipo da
mulher cristã, e da boa dona de casa, entregue às lides domésticas,
procurou sempre inspirar aos filhos o santo temor de Deus e levá-los ao
cumprimento de todos os seus deveres morais e religiosos. Altamente
preocupada com os sucessos que atraem a todo o momento as atenções
de milhares de pessoas para a sua pobre habitação, até há pouco tempo
ignorada do mundo, nota-se desde logo que o seu espírito hesita, numa
ansiedade inquieta, entre a esperança de que sua filha seja realmente
privilegiada com a aparição da Virgem e o receio de que ela seja vítima
de uma alucinação que lhe traga desgostos e cubra de ridículo toda a
sua família.
A uma pergunta minha acerca da piedade da sua Lúcia, responde
que não lhe nota nada de extraordinário neste particular, vendo-a rezar
da mesma forma e com o mesmo fervor que antes das aparições,
exatamente como fazem as suas irmãs.
Dou princípio ao interrogatório da vidente.
– É verdade que Nossa Senhora te tem aparecido no local chamado
Cova da Iria?
– É verdade.
– Quantas vezes te apareceu já?
– Cinco vezes, sendo uma cada mês.
– Em que dia do mês?
– Sempre no dia treze, exceto no mês de agosto, em que fui presa e
levada para a vila (Vila Nova de Ourém) pelo sr. administrador. Nesse
mês vi-a só alguns dias depois, a dezanove, no sítio dos Valinhos.
– Diz-se que a Senhora te apareceu também o ano passado. Que há
de verdade a este respeito?
– O ano passado nunca me apareceu (nem antes de maio deste ano);
nem eu disse isso a pessoa alguma, porque não era exato.
assíduo em levar os filhos à pia batismal. Quando eu nasci – ouvi contar a
minha mãe numa entrevista com o Dr. Formigão, que a interrogou perguntando
em que dia eu fazia anos - a Mãe respondeu: “Nós dizemos que é no dia 22 de
março, porque ela foi registada como tendo nascido nesse dia, mas, na verdade,
não é bem assim. Ela nasceu no dia 28 de março. Era quinta-feira Santa. [...] O Pai
tratou logo do batizado. Não lhe convinha na próxima semana , por motivo dos
seus trabalhos, mas, como estava mandado que os pais levassem os filhos a
batizar aos oito dias, depois de nascidos - que, de contrário, pagavam multa, o
Pai resolveu dá-la como nascida no dia 22, para que o Pároco a batizasse no
Sábado de Aleluia, que era o dia 30 do mesmo mês” (Memórias da Irmã Lúcia,
Memória V, capítulo 1, nº 2, Fátima, Vice-Postulação).
Doc. 10 1917-09-27