510 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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redondilhas, a história das aparições de Fátima; aquela massa
imponentíssima, coral de centenas de milhares de vozes, respondia com
o coro, Avé, avé, avé, Maria! E cada vez que o coro recomeçava,
instantaneamente, como se aquela mó humana fosse movida por uma só
mola oculta, erguia-se uma floresta de braços, mastros vivos de outras
tantas bandeiras alvíssimas: os lenços de cada um.
Foi coisa que me fez cuidar que ninguém naquela imensa multidão,
por muito pobre que seja, vem a Fátima sem trazer um lenço branco.
Aquele mesmo lenço, que já tantas vezes, nestas horas do céu, enxugou
lágrimas de felicidade, agita-se agora, em frémitos de gratidão e amor, e
parece viver, no adejo vibrante de uma pomba, que se debatesse para
alcançar a liberdade entre as mãos de quem a segurasse presa. Ninguém
resiste àquele espetáculo. Vi sacerdotes, engenheiros, médicos,
advogados; vi novos e velhos, cavalheiros distintos e homenzinhos do
povo, por cujas faces deslizavam às quatro e quatro, lágrimas
suavíssimas, que o sorriso dos lábios interpretava como lágrimas de
alegria, e não de tristeza. Que povo o nosso! Que bom povo, o povo
português!
Meu querido P. Gonçalves, depois disto, não sei dizer mais, a não
ser que um povo assim não morre, e que dou graças a Deus por me ter
trazido do Brasil a Portugal para presenciar uma cena destas.
Alegro-me por ter podido comunicar a V. Rev.ª, detido pela
enfermidade, na cama de um modesto quarto de enfermaria, uma
parcelazinha da felicidade que eu gozei, naquelas horas incomparáveis
da Cova da Iria.
Foi uma vantagem de só em fins de maio terminar esta carta começada
em abril.
Nos SS./SS. de V. Rev.ª muito me encomendo.
De V. Rev.ª irmão muito amigo e servo inf. em Jesus Cristo
LUÍS GONZAGA CABRAL, S. J.