507
~
~
~
entrada, no limite oposto do recinto, a vastíssima basílica, o maior templo
de Portugal. À direita deste, vão-se arqueando pela periferia do
anfiteatro, a igreja românica destinada às confissões dos homens, o
grandioso albergue destinado aos doentes também do sexo masculino,
a hospedaria dos peregrinos, e a casa dos Servitas. Do lado esquerdo
construir-se-ão outros tantos edifícios iguais aos precedentes, para
penitentes, enfermos, peregrinos e Servitas do sexo feminino.
Em Leiria, tinha eu pregado nos dias precedentes duas conferências,
uma a homens, outra a mulheres; tinha feito uma prática a seminaristas e
um sermão na Catedral para o exercício do mês de Maria. À noite do
dia 12, pelas 9 horas, saí de Leiria em automóvel com o Sr. Bispo, o seu
Secretário e Frei David, O. F. M. Quando nos aproximámos da Cova
da Iria, fiquei assombrado com o número de automóveis, caminhões e
outros veículos que já bordavam o local, em linhas triplicadas, do lado
de cima do rebordo circular.
Às 10 ½ começou a procissão das velas. O efeito não se parece em
nada com o de Lourdes. Lá, o serpentear das luzes assemelha-se a um
rio coleando por entre as várzeas; aqui, não é como um rio; é antes
como as correntes oceânicas, que são os rios do mar. Com efeito, a
multidão imensa que se aperta na Cova da Iria dá-nos o efeito de um
mar de luzes, pois raros são os que não compram a sua vela, por mais
pobrezinhos que sejam; e é dentro desse mar, que a parte móvel da
procissão se aperta mais ainda, deslizando em torcicolos no interior da
gigantesca mó de fogo, desenhando através dela uma tira muito mais
intensa que vai em zig-zags, tomando o caminho do majestoso pórtico.
Os cânticos sucedem-se, predominando porém sempre o Avé, avé,
avé Maria!
À meia-noite, exatamente no primeiro momento do dia 13, começou
o terço. Era para ele que se destinavam os meus 6 sermões da noite.
Eram pregados diante do microfone, e comunicados com assombrosa
nitidez àquela enorme multidão. Expus no primeiro sermãozinho o assunto
geral da pregação daquela noite: a Penitência. Cada um dos restantes
cinco sermões versou o respetivo mistério doloroso, pois o dia 13 de
maio caíu em terça-feira. A cena era por tal forma impressionante, que
ali mesmo senti a necessidade de seguir um rumo bem diverso do que
costumo seguir no púlpito. A cada passo passava a pregação a ser
dialogada, e o imenso auditório era convidado a acompanhar-me nas
súplicas, exclamações e jaculatórias.
Às duas horas estava terminado o meu trabalho da noite, e fui celebrar
Doc. 122 1930-05-16