502 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
2334A grande guerra europeia
A Aparição queria que se rezasse o terço e se fizesse penitência
para que Deus se dignasse pôr termo ao grande flagelo da guerra que
assolava tantas nações, produzindo milhões de vítimas e semeando por
toda a parte toda a sorte de ruínas morais e materiais. Anunciou que o
tremendo flagelo acabaria, ou melhor, teria acabado no dia 13 de outubro,
se os homens se arrependessem e emendassem dos seus pecados e
aplacassem a justiça divina, orando e fazendo penitência. A Lúcia
enganou-se, considerando como absoluta a afirmação da Visão. A
condição, implicitamente posta por esta, não se cumpriu e por isso a
guerra não acabou. Já no Antigo Testamento, Jonas se tinha enganado,
fazendo por ordem de Deus, uma profecia, que ele julgava absoluta e
que era apenas condicional. A cidade de Nínive seria destruída no dia
marcado pelo profeta, se os seus habitantes não fizessem penitência.
“Adhuc quadraginta dies et Ninive subvertetur!” A população da
cidade acreditou na ameaça e todos, desde o rei até ao último dos seus
súbditos e até aos próprios animais, se vestiram de cilício e de cinza.
Por esse motivo Nínive foi poupada com grande admiração e até com
um certo despeito de Jonas, que, não conhecendo os desígnios
misericordiosos do Senhor, pretendia a todo o transe que a profecia se
cumprisse, para que ninguém duvidasse de que ele falara em nome e por
ordem de Deus. Coisa muito semelhante sucedeu a S. Leonardo de
Porto Maurício, o grande apóstolo da Europa na Idade Media. Na sua
pregação, anunciava o fim do mundo para dois anos depois. Chegou a
ressuscitar um morto, que era levado para o cemitério, a fim de confirmar
a verdade da sua pregação. O morto assegurou que era certo tudo
quanto ele dizia. Mas os dois anos [55v] passaram, e o mundo não
acabou, porque a Europa converteu-se com as pregações de S. Leonardo
de Porto Maurício. De resto, a Virgem Santíssima podia ter permitido o
engano da Lúcia, de propósito, para a manter num espírito de profunda
humildade pela confusão que para ela advinha do facto de ter errado,
pelo menos aparentemente, num ponto de capital importância. Nem a
circunstância de ter caído num equívoco obsta a que os seus depoimentos
mereçam todo o crédito. Esse equívoco tinha a sua razão de ser
providencial e de modo nenhum embaraçava, como de facto não
embaraçou, o curso regular dos acontecimentos, que fizeram de Fátima
a Lourdes Portuguesa. No interrogatório oficial que foi feito a Lúcia,