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terra, feixes de luz dum efeito surpreendente. Esse espetáculo sublime e
incomparável, que se repetiu por três vezes distintas, durou quase dez
minutos. A multidão imensa, rendida perante a evidência de tamanho
prodígio, prostrou-se de joelhos, o Credo, a Avé-Maria e o ato de
contrição irromperam de todas as bocas e as lágrimas, lágrimas de alegria,
de gratidão ou de arrependimento, marejaram todos os olhos. O dr.
José Maria Proença de Almeida Garret, outra testemunha ocular,
descreve assim o fenómeno, [43] pág. vinte e dois e pág. vinte e quatro
dos “Episódios Maravilhosos de Fátima”: “O sol momentos antes tinha
rompido ovante a densa camada de nuvens que o tivera escondido,
para brilhar clara e intensamente. Voltei-me para este íman que atraía
todos os olhares e pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e
aresta viva, luminosa e luzente, mas sem magoar. Não me pareceu bem
a comparação, que ainda em Fátima ouvi fazer, de um disco de prata
fosca. Era uma cor mais clara, ativa e rica, e com cambiantes, tendo
como que o oriente de uma pérola. Em nada se assemelhava à lua em
noite transparente e pura, porque se via e sentia-se ser um astro vivo.
Não era, como a lua, esférica, não tinha a mesma tonalidade nem os
claros-escuros. Parecia um rodela brunida cortada no nácar duma concha.
Isto não é uma comparação banal de poesia barata. Os meus olhos
viram assim. Também se não confundia com o sol encarado através de
nevoeiro (que aliás não havia aquele tempo), porque não era opaco,
difuso e velado. Em Fátima tinha luz e calor e desenhava-se nítido e com
a borda cortada em aresta, como uma tábula de jogo. A abóbada celeste
estava enevoada de cirros leves, tendo frestas de azul aqui e acolá, mas
o sol algumas vezes se destacou em rasgões de céu limpo. As nuvens
que corriam ligeiras de poente para oriente não empanavam a luz (que
não feria) do sol dando a impressão facilmente compreensível e explicável
de passar por detrás, mas por vezes esses flocos que vinham brancos,
pareciam tomar, deslizando ante o sol, uma tonalidade rosa ou azul diáfana.
Maravilhoso é que, durante longo tempo se pudesse fixar o astro labareda
de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos e sem deslumbramento
na retina que cegasse. Este fenómeno com duas breves interrupções,
em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e
refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca
de [43v] dez minutos. Este disco nacarado tinha a vertigem do
movimento. Não era a cintilação dum astro em plena vida. Girava sobre
si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se um clamor,
como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando
Doc. 120 1930-04-13