474 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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impiedade e a indiferença lavravam por toda a parte. A falta de fé viva,
de piedade ardente e de espírito de sacrifício da parte dos poucos cristãos
que ficavam fiéis fazia que nenhuma resistência séria e eficaz se opusesse
à onda do mal, que tudo pretendia avassalar. O campo católico, bastante
reduzido, carecia de organização apropriada para a defesa e para o
combate. Como a Igreja estava unida ao Estado, fiava-se deste a defesa
daquela e entretanto os católicos cruzavam comodamente os braços ou
juntavam-se em volta do trono supondo que, amparando-o, amparavam
eficazmente a Igreja. Veio finalmente a República. Desencadeou-se
oficialmente contra a Igreja a mais terrível campanha que se pode
imaginar. O pouco que ainda restava do edifício grandioso e secular das
instituições religiosas e que o camartelo do liberalismo tinha poupado,
desmantelou-se por completo. Mas, ao mesmo tempo que a fúria
iconoclasta dos novos detentores do poder quebrava as algemas da
escravidão secular da Igreja, esta, pobre mas livre, começou a levantar-
-se do meio das suas ruínas. Sete anos depois, no recanto ignorado
duma serra, uma Visão de Paraíso anunciava que a guerra ia findar...
Dentro de poucas semanas fechou-se o ciclo da perseguição religiosa
com a revolução triunfante de Sidónio Pais, que teve o seu termo no dia
8 de Dezembro, festa da gloriosa Padroeira de Portugal e desde então
Fátima tornou-se o foco mais intenso de Fé e piedade que jamais houve
neste país. Cidades, vilas e aldeias, graças a esta devoção providencial,
recristianizam-se e regeneram-se como que por encanto. Em todas as
províncias da gloriosa terra de Santa Maria, a Fé aviva-se, a piedade
cresce, o amor a Jesus [35v] Sacramentado, culto tão querido da alma
portuguesa, intensifica-se, e a devoção à bendita Virgem de Fátima
propaga-se, subjugando até as almas mais frias e os corações mais duros
e mais refratários. Dir-se-ia que a Rainha do Céu quis ligar ao seu culto
sob a invocação de Fátima um poder misterioso de sedução que a todos
prende e arrasta invencivelmente. Basta ler a “Voz da Fátima” para se
fazer uma ideia do bem imenso que, sob o ponto de vista espiritual de
avigoramento da Fé e da intensificação da piedade tem produzido a
doce e encantadora devoção de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.
Ditoso país que na hora porventura mais dolorosa e mais trágica da sua
existência histórica foi objeto do amor misericordioso do Coração da
Mãe de Deus que o salvou do abismo em que estava prestes a cair!