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Portugal a Deus!
O afervoramento da fé e da piedade
Quando em outubro de mil novecentos e dez caiu o antigo regime e
foi implantada a forma de governo republicana em Portugal, a decadência
do espírito cristão, da piedade e da própria Fé tinha-se acentuado dum
modo espantoso. No intuito de derrubar as instituições então vigentes,
aluindo pelos alicerces o seu edifício multissecular, os chefes do movimento
antimonárquico dirigiram os seus ataques mais violentos contra a Religião
e contra a Igreja Católica. Por outro lado, a Igreja vivia com o Estado
em regime de concordata e as rela-[34v]ções entre os dois poderes,
eclesiástico e civil, eram tão íntimas que a sociedade religiosa e a
sociedade civil pareciam constituir um todo único. Mercê do espírito
liberal que saturava as instituições e os homens públicos, o Estado
interferia no governo e na administração da Igreja, abusando dos
privilégios que a Concordata lhe conferia ou arrogando-se direitos que
não lhe competiam. A política que influía em larga escala nas nomeações
para os cargos eclesiásticos, até para os graus mais elevados da
hierarquia, convertia, por força das circunstâncias, os ministros sagrados
em serventuários do Estado. Nos benefícios mais rendosos muitas vezes
eram providos, não aqueles sacerdotes que se distinguiam pelo seu
talento, virtudes e méritos, mas os que mais e melhores serviços tinham
prestado aos partidos políticos e aos seus chefes. Assim sufocada a
fecunda vitalidade da Igreja, que não tinha as condições necessárias
para se expandir e produzir os seus frutos de bênção, um largo campo
ficava livre aos inimigos da Fé para exercerem a sua ação nefasta. Estes,
aproveitando as circunstâncias políticas, que lhes eram favoráveis,
iniciaram por meio da imprensa e dos comícios de propaganda, uma
guerra desleal e acintosa contra a Igreja, para mais facilmente poderem
derrubar o trono, uma vez derrubado o altar. As regiões do centro e sul
do país, pela proximidade a que ficavam da capital, que era o principal
foco revolucionário, foram as que mais sofreram os efeitos dessa
propaganda tenaz e formidável. Principalmente as grandes cidades e
outros aglomerados de população mais importantes descristianizaram-
se e paganizaram-se quase completamente. Como a instrução religiosa
era deficientíssima em geral e em muitas partes nula, os homens, perdendo
a fé ao ouvir os sofismas contra a Religião e as calúnias contra o clero,
e com a fé, [35] a nobreza de sentimentos e os bons costumes,
Doc. 120 1930-04-13