468 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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-lhe: “Minha filha, que é que pedes?”. Lúcia de Jesus, grave e austera na
sua graciosa simplicidade, responde com uma voz firme e pausada: “Pelo
Amor de Deus e de Maria Santíssima, minha terna e cara Mãe, peço a
graça de ser admitida neste santo Instituto, para nele me consagrar de
todo ao serviço de Deus e à salvação do próximo, e de me ligar também
com os votos de Pobreza, Castidade e Obediência, que desejo fazer
segundo o espírito e regras deste mesmo Instituto”. E o interessante e
comovente diálogo continua, cada vez mais vivo e animado, entre o
venerando sacerdote, que representa a Santa Igreja e fala e procede em
nome dela, encarecendo a grandeza e importância do ato da profissão
religiosa e os deveres e responsabilidades que lhe estão inerentes, e a
humilde e despretensiosa menina, que responde sem hesitar, firme e
inabalável na sua generosa resolução e cheia de confiança [31] filial na
bondade omnipotente do Altíssimo. “Tens pensado bem nas obrigações
que andam anexas a estes votos?”. “Sim, seriamente o tenho pensado, e
espero, com o auxílio de Deus e a intercessão de Maria Santíssima e da
Santa Padroeira deste Instituto, poder cumpri-los e é por isso que peço
a graça de mos receber”. “Renunciaste com toda a liberdade e com
todo o coração ao século e a todas as pretensões mundanas?”. “Sim,
Reverendíssimo Senhor”. “Então queres tomar a Jesus Cristo por teu
Esposo?”. “Sim, com todo o meu coração”. Nesta altura o ministro do
Senhor apresenta o crucifixo à noviça e, dando-lho a beijar, diz: “Recebe,
minha filha, esta cruz na qual esta pregado Aquele que deve ser o teu
modelo e o único objeto de todo o teu amor”. E acrescenta as palavras
seguintes que são como que a forma substancial dos místicos
desponsórios, que se estão realizando: “Seja o teu Amado como um
fascículo de mirra e faça do teu coração a sua morada permanente, em
penhor duma união eterna e dum eterno amor. Sit tibi fasciculus myrrhae
dilectus tuus, et super cor tuum comoretur, in signum amoris et
unionis sempiternae.” Segue-se a imposição do véu, durante a qual o
oficiante diz: “Recebe o jugo do Senhor; o seu jugo é suave e o seu peso
é leve”. Proferidas estas palavras, dá-lhe a bênção e depois paramenta-
-se para rezar a santa Missa. Começa o incruento sacrifício dos nossos
altares. O silêncio é mais profundo, o recolhimento mais intenso, a oração
de todos mais fervorosa. Pairam vagamente naquele ambiente sagrado
harmonias celestiais. Dir-se-ia que os Anjos da guarda do Sacrário,
onde repousa na Hóstia sacrossanta o Divino Rei de amor, unem dum
modo sensível as suas alegrias e o seu gozo aos júbilos das almas
congregadas naquela casa de Deus. É chegada a ocasião de ministrar o