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entra na linda e devota capela, onde vítimas voluntárias de reparação e
expiação todos os dias elevam para o Céu o incenso das suas preces
fervorosas, a mirra das suas virtudes acrisoladas e dos seus sacrifícios e
o ouro dum amor precioso e sem liga, heróico e santo. Era sua Excelência
Reverendíssima o Senhor D. José Alves Correia da Silva, primeiro Bispo
de Leiria, depois da restauração da diocese, que devia presidir à
cerimónia, expressamente convidado para esse fim. Motivo de força
maior inibiu-o de comparecer. O recinto sagrado regorgita de fiéis. Em
lugares de destaque veem-se alguns convidados de elevada categoria.
Aproxima-se o momento solene, ansiosamente esperado, dos místicos
esponsais, das venturosas donzelas que vão consagrar-se para sempre,
dum modo especial ao serviço daquele adorável Senhor, a quem servir
e reinar. Em atitude modesta e recolhida, e na mais perfeita e edificante
compostura, mas palpitantes de intenso e comovido júbilo, elas ali estão,
em fila, nas longas bancadas da capela, de mãos postas e olhos postos
no Céu, orando incessantemente e com fervor. Confundida com as
demais, há uma, que nada assinala a atenção dos circunstantes, mas que
merece uma referência sobremaneira particular. É Lúcia de Jesus, a feliz
vidente de Aljustrel, a principal protagonista das Aparições de Nossa
Senhora de Fátima, a Lourdes de Portugal. Tem vinte e um anos de
idade. Esta tenra e mimosa flor dos campos, colhida entre as urzes e
azinheiras da serra de Aire, e transplantada do pátrio solo para uma
nesga de terra estrangeira, onde o respeito dos direitos da Consciência
humana não se reduz [30v] a uma palavra vã e a liberdade para o bem
não é uma ficção, lá se vê, no meio das flores, nascidas noutros climas e
sob outros céus, pronta a embalsamar perenemente com o seu delicioso
aroma a ara santa e o ambiente do augusto santuário. O ilustre oficiante28
revestido dos paramentos sacros, entoa o “Veni Creator”, invocando
sobre as futuras esposas do Redentor, as luzes e graças do Divino
Paráclito, o Amor incriado e consubstancial. A comunidade religiosa e a
multidão dos fiéis cantam o admirável hino litúrgico, que o órgão
acompanha com a sua voz majestosa e plangente, convertendo-o num
cântico de glória, num hino vibrante de ressurreição e de triunfo. Em
seguida o ministro sagrado, pronunciando as orações do Ritual benze o
crucifixo destinado à futura professa, asperge-o com água lustral,
servindo-se para isso do hissope, e depois procede da mesma forma à
28 Pe. Cândido Mendes.
Doc. 120 1930-04-13