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21, realizado em Braga. Ajuramentada aos Santos
Evangelhos, Lúcia prometeu dizer toda a verdade e só a verdade. A
leitura desse processo verbal não pode deixar de impressionar
profundamente toda a pessoa que o ler de boa fé. De cada resposta da
vidente, de cada afirmação sua, ressalta, com uma evidência dominadora,
a sinceridade das suas declarações, a verdade do seu depoimento.
Exprime-se com uma serenidade, uma calma, uma simplicidade, um
acento de firmeza e de convicção tão íntima, e ao mesmo tempo com
uma humildade tão grande, como se se tratasse de coisas que não lhe
dissessem respeito, que o seu depoimento não deixa nada a desejar e
não é de modo nenhum inferior sob qualquer ponto de vista, ao da
Beata Bernadette Soubirous, a angélica vidente de Lourdes, no processo
canónico que foi instaurado por ordem de monsenhor Bertrand-Sévère
Laurence, Bispo de Tarbes. Nas declarações de Lúcia de Jesus, por
ocasião deste inquérito, há três pontos que convém focar. Um dos pontos
é a prisão da vidente e dos seus covidentes no dia treze de agosto com
os episódios que se desenrolaram durante os dias em que estiveram
presos. O administrador do concelho, jacobino exaltado, que em nada
se pode comparar com o comissário de policia de Lourdes, Jacomet,
estava empenhadíssimo, por ódio à Religião e à Igreja, em pôr termo às
manifestações de Fé e piedade de que era teatro a Cova da Iria, havia
quatro meses22. Por esse motivo, no dia em que devia realizar-se a quarta
aparição, como já se disse mais atrás, apodera-se à falsa fé das pobres
crianças e leva-as numa charrette para sua casa em Vila Nova de Ourém,
sede do concelho. [28] Ali fecha-as num quarto, interroga-as, servindo-
-se de toda a espécie de trucs policiais para as fazer cair em contradição,
para as obrigar a desdizerem-se e para lhes arrancar o segredo que
dizem ter-lhes sido confiado pela Aparição. É preciso não esquecer que
nessa data a Lúcia tinha dez anos de idade, o Francisco nove e a Jacinta
quase sete23, que todos três eram crianças ignorantes e tímidas e que
nunca tinham saído da sua terra. Não há promessas nem ameaças de
que a autoridade não lance mão para conseguir os seus fins. Logo que
chegaram a Ourém, as crianças são fechadas num quarto e dizem-lhes
que não sairiam dali, enquanto não declarassem o segredo que a Senhora
lhes tinha confiado. No dia seguinte, depois de interrogadas por uma
21 O relator quereria referir-se ao 1º Congresso Eucarístico Nacional, realizado em
Braga, de 2 a 6 de julho de 1924.
22 Três meses (maio, junho e julho).
23 Cf. nota 1.
Doc. 120 1930-04-13