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O primeiro ato de perseguição oficial foi o rapto dos três videntes
efetuado no dia treze de agosto de mil novecentos e dezassete pelo
administrador de Vila Nova de Ourém pouco antes da hora marcada
para a quarta aparição. Chefe local do partido democrático, que na
vigência do novo regime foi o partido que assumiu uma feição mais
acentuadamente anticlerical e antirreligiosa, inteligente, audaz, mas sem
cultura literária ou científica, o administrador que tinha a profissão de
funileiro, procedia no exercício das suas funções como um verdadeiro
déspota, seguro da impunidade, cometendo toda a casta de
arbitrariedades contra a Igreja e contra o clero, como instrumento da
maçonaria [25] que na sede do concelho possuía um triângulo. A notícia
do rapto que se espalhou rapidamente e foi levada sem demora à Cova
da Iria, onde uma multidão de muitos milhares de pessoas aguardava a
chegada das crianças, causou a mais profunda impressão nas pessoas
que dele tiveram conhecimento. A mãe da Lúcia, quando lhe disseram
que a filha tinha sido presa, respondeu: “Se foi por Deus, Deus os
guardará, se mentiram, não continuam!...”. E, enquanto muitas pessoas
choravam de pena ou de indignação, ela conservava a serenidade duma
alma verdadeiramente cristã. O administrador tinha um ardente desejo e
alimentava a esperança de descobrir a interferência e manejos secretos
da reação clerical no caso de Fátima, que tanto o preocupava. Por isso
submeteu as crianças, durante os dias em que as conservou em sua
casa, a interrogatórios repetidos e capciosos, tentando debalde fazê-las
cair em contradições e recorrendo, também sem resultado, a promessas
e ameaças, já para as obrigar a confessar que estavam desempenhando
uma comédia ensaiada, já para lhes arrancar o segredo que, segundo
elas diziam, a Aparição lhes comunicara e que a ninguém podiam revelar.
Este abuso inqualificável da autoridade administrativa, que tão profunda
como justa indignação provocou em toda a gente de bem, constituiu um
ato providencial, que veio reforçar a convicção geral, nesse tempo já
tomada, de que as crianças não faltavam conscientemente à verdade.
No dia treze de maio de mil novecentos e vinte, quinta-feira da Ascensão,
devia realizar-se uma das mais esplendorosas manifestações de Fé e
piedade em honra da gloriosa Senhora aparecida. A Maçonaria, sabendo
o que se preparava, fez correr em Lisboa o boato de que a peregrinação
seria uma grande manifestação política. O seu intuito era conseguir que
o governo proibisse a peregrinação, o que realmente sucedeu. O
Doc. 120 1930-04-13