454 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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incómodo de colher previamente, como exigem as regras mais comezinhas
da crítica histórica, elementos de informação suficientes para fundamentar
um juízo seguro e imparcial sobre a origem e a natureza dos sucessos
maravilhosos. O jornal católico “A Ordem”, de Lisboa, no seu número
de quinze de novembro de mil novecentos e dezassete, inseriu uma carta
do reverendo José Freire, daquela cidade, em que o autor diz que se
deliciara com a leitura dum artigo, dias antes publicado, em que se
procurava reduzir às mais insignificantes proporções o fenómeno solar
de treze de outubro com todas as suas circunstâncias. E logo a seguir, o
mesmo sacerdote acrescenta: ‘Muito bem! Principalmente aquelas
palavras de Cristo – ‘Se não virdes maravilhas, não credes’ – saíram-
-lhe muito felizes. Apoiado, sr. redator. O seu artigo merecia ser escrito
em letras de ouro. Oxalá que estes católicos tomem juízo e estejam nos
seus deveres até se ouvir no meio destas trevas aquela voz do Senhor:
‘Faça-se [21v] a luz’. No mesmo jornal e no mesmo número, o reverendo
abade José Castro, em carta dirigida à redação, publica o seguinte: “Envio
sinceros parabéns pela sua atitude jornalística, a propósito do caso de
Fátima. Defende V. Ex.cia a boa doutrina. Aqueles que querem impôr à
força o ‘milagre’ são os seus piores inimigos, e não pode aproveitar-se
o seu testemunho... Só factos posteriores podem autorizar o
sobrenatural”. O reverendo Manuel Marques Ferreira, pároco de
Fátima, em carta datada de quinze de agosto de mil novecentos e
dezassete, publicada no mesmo jornal, defende-se das acusações que
injustamente lhe são feitas de cumplicidade com o administrador do
Concelho de Vila Nova de Ourém no rapto dos videntes realizado no
dia treze desse mês. Afirma nela que a sua vida chegou a correr perigo,
tão grande era a excitação dos ânimos, provocada pelo rapto e pela
calúnia que lhe foi assacada. Finalmente, expõe as razões da sua ausência
sistemática do local das aparições no dia treze de cada mês, a qual é
devida à convicção em que se acha de que a sua presença não é
necessária, se as aparições são realmente sobrenaturais, e ao desejo de
não fornecer aos inimigos da Igreja um pretexto para que atribuam a fé
da multidão à presença ou aos conselhos do pároco de Fátima. É um
facto geralmente reconhecido que os videntes muitas vezes procuravam
fugir ou esconder-se, quando sabiam que algum eclesiástico os procurava
para lhes falar, porque sabiam que eram por eles apertados com muitas
perguntas capciosas e repreendidos e escarnecidos, como se fossem
mentirosos e impostores. No inquérito a que foi submetida, quando era
educanda do Asilo de Vilar, no Porto, Lúcia de Jesus declarou que,