448 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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que a operação era inútil. Apesar disso, e muito embora ela insistisse em
afirmar que tudo era inútil, fez-se-lhe a operação, que correu bem,
conquanto sem êxito feliz, como se viu. Quatro dias antes de morrer,
como a pequena tivesse grandes dores e se queixasse, dizia-lhe a criatura
que a havia recolhido e a quem tratava por “madrinha”, que suportasse
com paciência as suas dores, que isso seria muito agradável a Deus. Na
manhã do dia seguinte disse-lhe a Jacinta: “Olhe, madrinha! Eu já não
me queixo! Nossa Senhora tornou-me a aparecer, dizendo que em breve
me viria buscar e que me tirava [17v] já as dores!”. E de facto, desde
esse dia até que morreu, segundo consta, não tornou a queixar-se nem
deu mostras de sofrimento. Tendo sucedido a “madrinha” passar ou
sentar-se ao pé da cama, não longe do sítio em que “a Jacinta disse ter
visto a Senhora”, a vidente exclamou: “Tire-se daí, madrinha, que aí
esteve a Senhora!...”. E a mesma preocupação se lhe apresentava,
quando alguma enfermeira passava pelo mesmo sítio. Como fossem ao
hospital algumas pessoas, imodestamente vestidas, ou visitá-la ou ver
outros doentes, e algumas enfermeiras se apresentassem com certos
exageros no traje, dizia, indicando essas pessoas e referindo-se a
determinados enfeites e decotes: “Para que serve aquilo!? Se soubessem
o que é a eternidade!...”. Falando dalguns médicos que ela julgava serem
incrédulos, lastimava-os, dizendo: “Coitados, mal sabem o que os
espera!”. Afirmava a vidente que Nossa Senhora lhe havia comunicado:
“que o pecado que leva mais gente à perdição, era o pecado da carne,
que era preciso deixarem-se de luxos, que não deviam obstinar-se no
pecado como até aqui, e que era preciso fazer muita penitência”. E
parece que a Senhora, ao dizer isto, se mostrava muito consternada,
porque a pequena acrescentava: “Ai! Eu tenho muita pena de Nossa
Senhora! Tenho muita pena!”. Enquanto esteve em casa, antes de ir
para o hospital, vivia em companhia doutra pequenita, a quem
recomendava muitas vezes “que fosse muito obediente, que não fosse
preguiçosa e que nunca faltasse à verdade”. Pouco antes de morrer,
perguntando-se-lhe se queria tornar a ver a mãe, respondeu: “que a
família dela durava pouco tempo e que em breve se encontrariam no
Céu”. Disse mais que Nossa Senhora “devia ainda aparecer outra vez,
mas não a ela, porque com certeza morria, segundo ela lhe disse”. Pediu
licença para se confessar, muito embora se tivesse confessado e
comungado antes de entrar para o hospital. Foi confessá-la o rev.do
prior [18] dos Anjos, dr. Pereira dos Reis, mas não teve tempo de lhe
dar a Sagrada Comunhão. Entrou para o hospital no dia dois de Fevereiro