446 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
56768 9:6;99@C DC568 :@C =<985<E A boa mulher
procurava tranquilizá-lo, lembrando [16] que, se lhe custasse pronunciar
as palavras da Oração Dominical e da Saudação Angélica, dissesse
essas orações só com o pensamento, que Nossa Senhora lhe aceitaria o
seu obséquio com o mesmo agrado. Recomendava frequentemente à
mãe que não se esquecesse da oração que a Santíssima Virgem tinha
ensinado aos três videntes, porque ele nunca se esquecia de a rezar. E,
quando a pobre mulher se lamentava de que não raro a omitia por lapso
de memória, o pequeno ponderava-lhe que a podia rezar mesmo pelos
caminhos. Uma vez por outra queixava-se sentidamente de que não
sabia oferecer o terço como muita gente tinha a felicidade de saber, o
que lhe causava bastante pena. Apesar de nunca mais ter tido saúde, de
quando em quando, dava um pequeno passeio, chegando a ir até à
Cova da Iria. Quando alguém lhe asseverava que havia de melhorar, a
sua resposta era logo um “não”, proferido com um ar misterioso e num
tom que impressionava extraordinariamente. Como um dia sua madrinha
Teresa de Jesus prometesse, na presença dele, pesá-lo a trigo, se Nossa
Senhora o melhorasse, declarou perentoriamente que era inútil fazer essa
promessa, porque jamais alcançaria a graça da sua cura. Possuía uma
consciência em extremo delicada, sem embargo da sua pouca idade e
de haver recebido uma formação religiosa muito deficiente e rudimentar.
Uma vez em que o aconselhavam a levar as ovelhas, confiadas à sua
guarda, pela orla das propriedades da madrinha, que decerto se não
opunha a isso, não quis fazê-lo sem licença expressa dela por julgar que
fosse um roubo. No dia dois de abril, a família, achando-o pior de saúde,
mandou-o recolher à cama e chamou o pároco para o confessar. Não
tinha ainda feito a sua primeira comunhão e por isso receava que não lhe
fosse permitido [16v] receber Nosso Senhor. Grande, extraordinária
até, foi pois, a sua alegria, quando o pároco lhe prometeu trazer no dia
seguinte de manhã o Sagrado Viático. Na véspera pediu à mãe que o
deixasse estar em jejum até essa hora, pedido a que ela acedeu sem
relutância, assegurando-lhe que não lhe daria nada a tomar depois da
meia-noite. Quando chegou o pároco com o Santíssimo Sacramento,
quis sentar-se na cama para se confessar e comungar, o que não lhe foi
consentido. Ficou radiante de contentamento por ter recebido pela
primeira vez no seu peito o Pão dos Anjos e, quando o pároco se retirou,
perguntou à mãe se não tornaria a comungar, ao que ela retorquiu que o
não sabia. Durante o resto do dia pediu de tempos a tempos água e
leite. À noite pareceu agravar-se ainda mais o seu estado, mas,
perguntando-lhe a mãe como se sentia, declarou que não estava pior e