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enganar-se, enganavam-se talvez, muitas vezes, nos juízos que formavam,
mas era por desvio inconsciente da inteligência e não por erro contumaz
da vontade. Nem o interesse, nem a vaidade, nem qualquer outra paixão
inconfessável, foi jamais o móbil das suas palavras ou das suas atitudes.
As suas virtudes cristãs, atestadas por todos aqueles que os conheciam
no seu viver íntimo, assim como a sua reconhecida despreocupação de
objetivos de ordem material excluíam por completo a possibilidade de
que assim fosse. De resto não havia ninguém que não lhes fizesse essa
justiça. A resignação admirável com que suportaram o grande golpe da
perda dos dois filhos mais novos, que a Virgem Santíssima, como eles
criam sem hesitação alguma, privilegiara com as suas divinas aparições,
perda que para eles representava o malogro de todas as esperanças
huma-[15v]nas que porventura tivessem alimentado, é mais um
testemunho da sua sinceridade e do seu desinteresse e um indício seguro
de que o espírito profundamente cristão que os animava fazia-lhes
pressentir e como que adivinhar a única solução a dar ao momentoso
problema de Fátima.
A morte do Francisco
Francisco Marto, primo de Lúcia de Jesus, a protagonista das
aparições de Fátima, adoeceu gravemente no dia vinte e três de
dezembro de mil novecentos e dezoito, atacado da terrível epidemia
broncopneumónica, que então grassava em todo o mundo. Nessa data,
todas as pessoas da sua família estavam de cama, feridas pelo mesmo
flagelo, à exceção do pai. Este e algumas vizinhas caridosas tratavam
desveladamente dos enfermos, envidando todos os esforços para que
nada lhes faltasse. Durante cerca de quinze dias a inocente criança ficou
retida no leito “com a força da doença”, segundo a expressão da mãe,
levantando-se nos princípios de janeiro num estado de grande fraqueza
que, longe de diminuir, foi pelo contrário aumentando de dia para dia.
Uma vez, durante as aparições, tendo a Lúcia perguntado à misteriosa
Senhora que lhe falava, se ela e a Jacinta iriam para o Céu, e obtendo
resposta afirmativa, fez idêntica pergunta acerca do Francisco,
respondendo a Visão que também lhe caberia tamanha ventura, mas
que primeiro havia de rezar muitas vezes o terço. Desde esse momento
até adoecer, o ditoso vidente nunca mais deixou passar um dia sem
oferecer essa singela homenagem à Rainha do Céu. Depois que se
levantou da cama, não sentindo às vezes forças para rezar o terço inteiro,
Doc. 120 1930-04-13