444 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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suspirava pela paz e sossego do seu lar, anteriores às aparições e que
não voltariam mais, senão a troco da perda da filha que, resignada à
vontade de Deus, mas com o coração dilacerado de dor, previa estar
iminente.
Atitude dos pais do Francisco e da Jacinta
Segundo o depoimento de Manuel Goncalves Júnior, do lugar de
Montelo, da freguesia de Fátima, testemunha absolutamente fidedigna,
“os pais do Francisco e da Jacinta, Manuel Pedro Marto e Olímpia de
Jesus Marto, são pessoas muito boas, profundamente religiosas e
respeitadas e estimadas por todos. O pai tem fama de ser o homem
mais sério do lugar (Aljustrel). É incapaz de enganar alguém. Muito
laboriosos, ocupam-se no amanho das suas propriedades, de cujos
rendimentos vivem. Posto que não sejam ricos, no sentido rigoroso da
palavra, possuem abundantes meios de fortuna, ao contrário da família
da Lúcia, que pode considerar-se apenas remediada e vivendo numa
discreta mediania. Perante os sucessos desenrolados na Cova da Iria,
puseram-se incondicionalmente, desde a primeira hora, ao lado dos filhos,
cuja inocência simples e ingénua bem conheciam e de cuja sinceridade
nem por sombras podiam duvidar. A sua própria piedade, ao mesmo
tempo profunda e desacompanhada duma sólida cultura religiosa, induzia-
-os, na sua rude franqueza de pessoas honradas, que consideravam um
dever de consciência julgar os outros por si, a acreditar plenamente nas
declarações das crianças. Dir-se-ia, ao ouvir as suas observações e os
seus comentários, que consideravam tão obrigatória a crença nas
aparições como nos dogmas definidos da fé crista. Bons e humildes co-
[15]mo eram, crentes sem fanatismo, defendiam com sereno e calmo
entusiasmo os seus pontos de vista na matéria, mas não ofendiam, nem
sequer ao de leve, com as suas palavras cheias de calor e de vida e
repassadas da mais evidente sinceridade, as pessoas, geralmente vizinhos,
com quem conversavam e discutiam ao serão, que negavam a realidade
ou a sobrenaturalidade dos sucessos maravilhosos ou punham em dúvida
a manifesta boa fé dos videntes. E, se porventura um ou outro dos
contraditores se exaltava ao sustentar a sua opinião, irredutível na sua
intransigência, para logo aquelas duas boas almas, cheias de caridade e
amigas da paz, se remetiam ao silêncio, pondo assim termo à discussão,
antes que ela tomasse por um caminho que repugnava ao temperamento
e aos seus sentimentos cristãos. E é muito para notar que só o amor da