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c Virgem e o receio de que ela fosse vítima duma
alucinação que lhe trouxesse desgostos e cobrisse de ridículo toda a sua
família. Foi pela família dos outros dois videntes, Francisco e Jacinta,
seus sobrinhos, que ela soube que Nossa Senhora tinha aparecido à
filha da primeira vez, porque a Lúcia aconselhou os seus companheiros
a não dizerem nada, com receio de que lhes ralhassem. Esta, só depois
de interrogada pela mãe, é que disse o que tinha visto. Era com a maior
bondade e delicadeza que Maria Rosa recebia todas as pessoas que
desejavam ver sua filha e falar com ela, mas ao mesmo tempo com a
prudente reserva que as circunstâncias impunham. Reconhecia que era
uma graça muito extraordinária o aparecimento da Santíssima Virgem à
Lúcia, mas por isso mesmo o seu espírito debatia-se numa grande
incerteza, tanto mais que a vidente possuía apenas – e ninguém melhor o
sabia do que ela – uma virtude e uma piedade vulgares. A consideração
do peso enorme das responsabilidades que a realidade das aparições
da Rainha do [14] Céu acarretava sobre toda a sua família perturbava-
lhe a alma e enchia-a de temor. Mas o que mais a preocupava era a
dúvida em que vivia acerca da origem e natureza dos sucessos
maravilhosos da Cova da Iria. A princípio não acreditava na sinceridade
das crianças. Perante a concorrência das multidões à Cova da Iria nos
dias treze, o seu desejo era obstar a ida de sua filha a esse local em tais
dias. Só a muito custo e guiando-se pelos conselhos de pessoas de
autoridade, que a aconselhavam a dar liberdade à filha para fazer o que
lhe aprouvesse, é que se resolvia a permitir a sua partida. Temendo que
a filha andasse a enganar o povo com falsas declarações, embora não a
tivesse por mentirosa, exprobava-lhe severamente o seu procedimento,
ameaçando-a várias vezes com pancadas, e uma ocasião, num dos
primeiros meses das aparições, chegou até a bater-lhe com um chinelo,
tratando-a de impostora. Não raro a boa mulher manifestava o receio
de que a Lúcia fosse vítima duma ilusão, embora encarasse com íntimo
júbilo a hipótese duma felicidade tão grande como a escolha da filha
pela Santíssima Virgem para sua confidente. Com o decorrer do tempo
e à medida que os acontecimentos se iam desenrolando, convenceu-se
da sinceridade dos videntes, mas, enquanto a autoridade eclesiástica
não permitiu o culto público no local das aparições, era inclinada a crer
que se tratava duma grande ilusão natural ou diabólica. Nunca deu mostra
de enfado quando lhe apareciam pessoas a visitá-la por motivo das
aparições, apesar do transtorno que não raro essas visitas causavam à
lida da casa e ao amanho das suas propriedades, quando se realizavam
nos dias úteis. O seu desinteresse foi sempre manifesto, assim como o
Doc. 120 1930-04-13