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um indício da sua sobrenaturalidade.
O êxtase
A azinheira sobre a qual aparecia a misteriosa Senhora tinha pouco
mais dum metro de altura, e os três videntes, de pé ou ajoelhados junto
dela, não podiam facilmente ser vistos e observados de frente pelas
pessoas presentes. Todavia, num dos depoimentos sobre as aparições,
encontram-se algumas palavras, que parecem denunciar o estado de
êxtase na Lúcia, tanto mais que esse depoimento é duma pessoa rude,
embora fidedigna, que decerto nunca tinha ouvido falar nesse fenómeno
sobrenatural. Trata-se do depoimento de Maria Rosa Pereira, de sessenta
e três anos de idade, casada com José Pereira Lopes, do Casal da
Fonte, freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas. O rev.do
António Lopes Laranjeiro9, antigo professor do Seminário Patriarcal
em Santarém, e então capelão no lugar das Moreiras Grandes, da mesma
freguesia, declarou que conhecia perfeitamente a testemunha e que a
considerava muito séria e absolutamente digna de crédito. Este
depoimento foi feito a treze de novembro de mil e novecentos e dezassete
e refere-se à aparição do dia treze de outubro anterior. Diz a testemunha
que nesse dia se achava próximo das crianças quando se deu a aparição,
vendo-as muito bem do lugar onde estava. O povo comprimia-se cada
vez mais, de tal maneira que as crianças corriam perigo de ser esmagadas
apesar do esforço que empregavam as pessoas que as rodeavam para
conter aquela onda humana. Todos queriam ver e ouvir de perto, o que
era impossível. A Jacinta distraída e cheia de medo chorava [11v] por
causa dos empurrões que recebia. A Lúcia acariciava-a e pedia-lhe que
não chorasse, porque ninguém lhe faria mal. O Francisco também estava
distraído por causa do povo. De repente, a prima disse-lhe que olhasse
para a azinheira. O rosto da menina fez-se mais lindo do que era,
tornando-se corada e adelgaçando-se-lhe os lábios10. Maria Pereira
que se expressou nestes termos com a maior simplicidade e naturalidade,
ignorando o que eles podiam significar de muito extraordinário, era pessoa
9 Nasceu na freguesia de Assentiz, concelho de Torres Novas, em 1880. Frequentou
o Seminário de Santarém e faleceu a 26 de junho de 1922, em Moreiras Grandes.
10 A depoente utilizou a palavra “beiços”.
Doc. 112 1930-04-13