436 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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com uma exatidão minuciosa. É esta a diferença capital entre os dois
estados. Outra consideração acerca da alucinação em geral e as visões
de Fátima e que estas foram fecundas, ao [9] passo que aquela é estéril.
O alucinado não descobre coisa alguma nos seus sonhos doentios; não
cria nada, nem nas formas que a sua imaginação lhe apresenta, nem nas
ideias que essas formas lhe sugerem; não inventa, recorda-se
simplesmente. As visões da Cova da Iria são completamente diferentes.
As crianças anunciam com meses de antecedência um sinal misterioso,
um milagre, prometido pela celeste aparição e destinado a fazer que
todo o povo acreditasse que era a Virgem do Rosário que aparecia,
como uma promessa de bênçãos, em terras de Portugal. E no dia
marcado, treze de outubro, setenta mil pessoas, de todas as idades,
classes e condições sociais, vindas de todos os pontos do país, e até do
estrangeiro, acumulam-se nas faldas da serra de Aire para presenciar o
sinal profetizado. E o espetáculo maravilhoso, o fenómeno estupendo, o
prodígio inaudito que as crianças, que ninguém jamais tinha visto, faz
cair de joelhos aquela multidão imensa, em que os incrédulos e os ímpios,
de envolta com os crentes, choram, soluçam, rezam, todos rendidos,
comovidos e estupefactos, perante a evidência empolgante e irrecusável
de tão assombroso milagre.
Depois das visões
Um alucinado mostra-se orgulhoso, irritável, insubordinado e
insensível às afeições de família. Os videntes de Fátima não eram assim.
Foram sempre crianças humildes, mansas e dóceis. Tendo a mãe da
Lúcia proibido a filha que tornasse a ir a Cova da Iria, esta dispôs-se a
obedecer e, se voltou lá, foi porque a mãe, a pedido de várias pessoas,
revogou a proibição que fizera. Modesta e simples, era para a pobre
pequena um verdadeiro suplício ter de descrever os espetáculos celestes
que presenciava, prestando-se a isso por obediência ou por delicadeza,
fa-[9v ]zendo-o então com bondade e sem deixar transparecer nenhum
sinal de enfado. Para com a mãe e para com as demais pessoas de sua
família foi sempre muito carinhosa, manifestando um vivo e constante
interesse por tudo o que lhes dizia respeito e principalmente pelo seu
bem espiritual. As numerosas cartas que tem escrito para a mãe, desde
que saiu de casa para se educar, são modelos admiráveis de piedade
filial e de caridade para com os seus parentes mais próximos. Graças às