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alucinações religiosas que ela teria dado ocasião. Ora a sua piedade
não era superior à das crianças da sua idade. O Francisco e a Jacinta
não tinham feito sequer a sua primeira comunhão. Nenhuma das crianças
sabia ler e por isso só com dificuldade e muito incompletamente puderam
aprender a doutrina. A Lúcia, interrogada [7] depois das aparições acerca
do poder de Nossa Senhora, declarou com a maior ingenuidade que o
julgava superior ao de Deus. Eis o estado em que se encontrava, em
matéria de religião, o espírito dos videntes de Aljustrel, quando a
Santíssima Virgem lhes apareceu. Seria, pois, um contrassenso admitir
que a sua cultura religiosa as tivesse preparado de antemão para uma
excitação mística tão desordenada que lhes perturbasse os seus cérebros
juvenis. Por outro lado, nunca mostraram nenhuma inclinação para o
misticismo, sem excetuar o período da sua vida que se seguiu
imediatamente às visões. Um ilustrado professor de instrução primária6,
que, ainda antes do fim do mês de outubro, assistiu no local das aparições
à recitação do terço presidida pela Lúcia, declarou ter ficado mal
impressionado ao ver a distração da criança, que ele esperava que se
recolhesse e concentrasse num alheamento quase estático de todas as
coisas do mundo no sítio em que tivera a ventura incomparável de
contemplar a Rainha do Céu. Um cavalheiro de elevada categoria que
no mesmo mês foi visitar a Cova da Iria, afirmou ter-lhe causado
estranheza ouvir a Lúcia responder às perguntas que lhe faziam
relativamente às aparições, dizendo tudo sem um certo sentimento de
piedade e sem ter bem consciência da graça recebida. Não se notava
nas crianças nada que as distinguisse das melhores crianças suas
companheiras, nem uma comoção extraordinária, nem um recolhimento
excecional. Tinham as suas distrações e as suas leviandades, como as
outras. A sua devoção era sã e simples, sem atrair particularmente a
atenção. Tais eram as almas ingénuas do zagalete e das duas pastorinhas.
Ninguém de boa fé deixara, pois, de reconhecer que estavam pouco
predispostas para as alucinações religiosas. O seu temperamento bem
equilibrado preservava-as das alucinações [7v] em geral, e, se porventura
tivessem propensão para elas, as tendências das suas almas tê-las-iam
impedido de misturar a religião com os seus sonhos de doentes. Para ter
6 Tratar-se-á do Professor António Lalanda dos Santos. Há uma carta deste para
Maria Piedade Ordaz, datada de fins de outubro de 1917, descrevendo o que
viu no dia 13 de outubro.
Doc. 120 1930-04-13