432 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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mais cheio de prevenções. Nas suas feições reflete-se um encanto tanto
mais suave e penetrante, quanto é certo que nele só se descobre a efusão
de almas cândidas. É impossível alimentar a seu respeito a mais ligeira
suspeita de impostura. O próprio administrador do concelho de Vila
Nova de Ourém, que as interrogou no dia 13 de agosto, e as conduziu
presas para sua casa, onde as conservou durante dois dias, procurando
pela ameaça e pelo terror obrigá-las a desdizerem-se, mostrou-se depois
desse dia visivelmente impressionado e declarou que não mais tornaria
a interferir em semelhante assunto. Era a sinceridade das crianças que
se impunha a todos, categórica, decisiva, fulminante. As suas afirmações
eram feitas de tal maneira que afastava por completo todo o receio de
má fé. As crianças juntam os seus rebanhos numa propriedade
pertencente à família da Lúcia e situada à beira da grande estrada distrital.
Enquanto o gado anda pastando, entretêm-se inocentemente a brincar
e, num dado momento, rezam em comum o terço do Rosário, como
costumavam fazer todos os dias. Nenhum acontecimento, pois, foi menos
preparado, mais espontâneo, mais visivelmente inesperado para as
crianças que dele foram os protagonistas. Mas a cena celeste, em que
de modo nenhum tinham pen-[6v]sado, antes de serem testemunhas
dela, tinham em seguida consciência de a haverem contemplado; nada
pode impedi-las de o dizer, e elas disseram-no e resolutamente, com
uma segurança que não se entibiava jamais. 2° Mas se a sua boa fé é
certa, se ninguém pode duvidar nem duvida de que elas julgaram
verdadeiramente ver e ouvir o que afirmaram ter visto e ouvido, não
foram vítimas duma ilusão, que teriam em seguida feito inocentemente
partilhar? Não foram influenciadas por um temperamento nervoso, que
produzisse nelas, alucinações da vista e alucinações do ouvido? Eis a
questão que importa resolver: a) Para sofrer o império duma natureza
nervosa, a primeira condição é evidentemente... ter uma natureza nervosa.
É este o caso das crianças? Não se encontraram nelas sintomas de
nenhuma enfermidade. Mais: nunca estiveram doentes. Nenhum indício
permite crer que os nervos tivessem parte preponderante no seu
temperamento. Não apresentaram nunca um só dos sintomas que se
observam nos nevropatas; não os apresentaram antes dos acontecimentos
da Cova da Iria, nem os apresentaram depois. Eram, pelo contrário,
dum caráter pacífico e equilibrado. Não se mostravam concentradas
nem pensativas. Despreocupadas e expansivas, gostavam de brincar
com as crianças da sua idade. Naturalmente alegres, a sua alegria era
simples, franca, infantil. A exaltação de que se deveria acusá-las, uma