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s s As crianças suspenderam o seu entre-[4]tenimento e
olharam admiradas para as alturas. O céu estava diáfano e sem nuvens,
não soprava a mais leve brisa e o sol brilhava em pleno zénite. Não
obstante, a Lúcia convidou os primos a retirarem-se sem demora para
casa, com o receio de que se desencadeasse alguma trovoada. Eles
acederam sem relutância e todos três puseram-se a tocar o gado pela
encosta abaixo. Ao chegarem ao ponto, onde se encontra atualmente a
primeira fonte, veem fuzilar um novo relâmpago e, a poucos passos de
distância, de pé sobre uma pequena azinheira, no sítio onde mais tarde
foi erigida a capela das aparições, um vulto de Senhora bastante nova,
de incomparável formosura. Assustadas com a inesperada aparição, as
crianças tiveram vontade de fugir e preparavam-se para isso, mas
conteve-as um sinal da Senhora, que disse que não tivessem medo,
porque não lhes fazia mal. A Aparição parecia não ter mais de dezoito
anos de idade. O vestido era duma alvura puríssima de neve, assim
como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte
do corpo. O rosto, duma nobreza de linhas irrepreensível e que tinha um
não sei quê de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e
como que toldado duma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à
altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz, um lindo rosário,
cujas contas, brancas de arminho, pareciam pérolas. De todo o seu
vulto, circundado dum esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam
feixes de luz, especialmente do rosto, duma formosura impossível de
descrever e incomparavelmente superior a qualquer beleza humana. Entre
a Aparição e a Lúcia travou-se um diá-[4v]logo que durou cerca de dez
minutos. AAparição convidou as crianças a voltarem lá todos os meses,
no dia treze, até outubro seguinte, assegurando que no último dia lhes
diria quem era e o que queria. No dia quinze de outubro, o então pároco
de Fátima, rev.do Manuel Marques Ferreira, enviou a Sua Excelência
Reverendíssima o Senhor D. João Evangelista de Lima Vidal, arcebispo
de Mitilene e governador do Patriarcado de Lisboa, durante o desterro
de Sua Eminência o Senhor Cardeal Patriarca, D. António Mendes Belo,
um ofício em que lhe comunicava o que de extraordinário se estava
passando na área da sua freguesia e pedia instruções sobre a atitude a
tomar em face dos acontecimentos. Em resposta a esse ofício, recebeu
o pároco outro, do Excelentíssimo Governador do Patriarcado, datado
de três de novembro seguinte, em que lhe ordenava que procedesse a
um inquérito consciencioso sobre os factos ocorridos, ouvindo
testemunhas fidedignas e principalmente as crianças que se diziam
favorecidas com graças singulares do Céu. Ao mesmo tempo, o Vigário
Doc. 120 1930-04-13