428 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
Doc. 120
1930-04-13
Relatório da Comissão Canónica Diocesana sobre os acontecimentos de Fátima.
Publ.: DCF, II - Doc. 9 (neste documento usou-se uma numeração própria. As
folhas1 a 3 estão em branco. Por isso o documento inicia-se na fl. 3v).
[ Os videntes e os inquéritos oficiais
In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Amen.
Na manhã do dia 13 de maio de mil novecentos e dezassete, a cerca
de dois quilómetros e meio da igreja paroquial de Fátima, concelho de
Vila Nova de Ourém, distrito de Santarém, na direção do oeste, a margem
da estrada distrital, num sítio vulgarmente chamado “Cova da Iria”, três
crianças apascentavam um pequeno rebanho. Eram duas meninas e um
rapaz. A mais velha das meninas, que tinha dez anos de idade, chamava-
-se Lúcia de Jesus e a mais nova, apenas com seis anos1, Jacinta Marto.
O nome do rapaz, de nove anos, era Francisco Marto. Moravam em
Aljustrel, uma das quarenta aldeias da vasta freguesia de Fátima, e uma
das mais próximas da igreja e do presbitério. O Francisco e a Jacinta
eram irmãos e a Lúcia sua prima coirmã. Os pais desta foram António
dos Santos, que faleceu no ano seguinte2, e Maria Rosa dos Santos, e
os daqueles Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Marto. As crianças
possuíam uma instrução religiosa muito rudimentar, tendo só a Lúcia
feito a sua primeira Comunhão. Nenhuma delas sabia ler e escrever.
Aproximava-se a hora do meio-dia solar. A devoção mais querida naquela
região é a recitação do terço do Rosário. É rara a família, cujo chefe, à
noite, depois da lida dos campos, não reze o terço juntamente com os
seus, antes da ceia que é a refeição principal. As três crianças, como era
seu costume, rezaram o terço em comum, e depois puseram-se a fazer
uma casa em miniatura, servindo-se para isso das pedras soltas que
havia em grande abundância no local, como há quase por toda a parte
na serra de Aire. De repente, um relâmpago, de luz viva e brilhante,
1 Jacinta tinha já sete anos (nasceu a 11 de março de 1910, data oficial; cf. Doc. 1,
nota 5).
2 António dos Santos faleceu, dois anos depois, a 31 de julho de 1919.