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embalou-lhe o berço, amparou-lhe os primeiros passos, bem difíceis e
contrastados, com que tomou posse da terra sua, – conduziu-o depois
pela mão nas arrojadas empresas de dilatar a fé e o império através do
mar tenebroso, desde as balizas do mundo conhecido aos últimos confins
do desconhecido.
Que palmo de terra há no continente e ilhas, que não esteja assinalado
por algum benefício da Mãe de Deus? E em correspondência, que monte
onde não alveje um santuário de Maria, meta de fervorosas romagens?
Que cidade, vila ou aldeia onde as melhores igrejas não sejam em sua
honra? Talvez todas as igrejas na terra, talvez todos os altares na igreja,
talvez todas as imagens no altar são de Maria; em cada encruzilhada
uma imagem, em cada palavra um oratório, em cada casa um altarzinho,
até em cada choça ao menos um registrozinho em papel, pegado com
miolo de pão na porta desengonçada.
De facto Portugal era isto: cada palmo de terra uma memória, cada
coração uma lâmpada a arder em honra de Maria!
Terra de Santa Maria! Abençoada terra portuguesa!
Não admira se naquele jardim, cuidado por mãos tão mimosas de
tal Mãe, se arreigou profunda a fé, floresceu a religião e a piedade, o
amor ao Senhor dos Passos e a Jesus Sacramentado e ao Coração de
Jesus, a devoção inquebrantável ao Vigário de Jesus Cristo, o amor à
Santa Igreja tão filial, que até os dias todos da vida quis receber da sua
mão santificados: baste a prová-lo a denominação dos dias da semana,
que enquanto nas outras nações tem ressaibos de paganismo antigo, só
em Portugal é puramente cristã e eclesiástica. Não admira que lá desde
o princípio vicejasse e se espandisse incoercível o zelo apostólico; zelo
talvez rude e manifestado em poderosas cutiladas aos agarenos ou em
feras lançadas aos turcos na Índia, mas sempre ardente e poderoso,
que durante dois séculos inundou de missionários a África, a Ásia, a
Oceânia e grande parte da América, bem mais de meio mundo: fazendo
em poucos lustros tais prodígios de evangelização, que não creio tenham
sido igualados por nação nenhuma em muitos séculos.
Mas era tão pujante de seiva o amor da fé na terra de Santa Maria,
que precisava de estender ao longe a copa dos seus ramos: ansioso de
abrigar sob eles, se possível fora, a todo o mundo. Brotava tão copiosa
a fonte da cristandade no coração português, que não bastava a
pequenina taça lusitana para conter as suas águas; transbordava em
catadupas, corria ao longe em rios caudalosos a regar e fecundar mais
de meio mundo. Ardia tão poderosa a chama da caridade, que bastava
Doc. 109 1929-10-17