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î No dia 13, que estava designado para a aparição de Nossa
Senhora, dirigimo-nos ao local indicado. Já ali fervilhavam milhares de
pessoas, que, impulsionadas pelo desejo de a verem, ali se tinham
arrastado, vindo de longínquas povoações algumas delas.
A curiosidade era geral e num momento todos se conservaram
silenciosos, boquiabertos, perscrutadores, como que procurando ouvir
qualquer voz que vinha das entranhas da terra. Nisto, ouve-se um ruído
semelhante ao ribombar do trovão e logo a seguir as duas crianças, que
estavam junto duma carrasqueira circundada por muitas florinhas, creio
que paradisíacas, irromperam num choro aflitivo, fazendo gestos epiléticos
e caindo depois em êxtase. A uma delas, a que tinha o privilégio de ouvir
e ver a santa, fizeram várias pessoas muitas perguntas, às quais respondia
dizendo que via uma espécie de boneca muito bonita, que lhe falava.
Tinha, dizia, um resplendor em torno da cabeça e chamava-a para junto
de si, numa voz muito fininha e melodiosa. Entre muitas coisas que lhe
disse, a principal foi anunciar-lhe a sua reaparição do dia 13 a um mês e
no mesmo sítio, aparecendo ainda mais outra, para declarar o motivo
por que tinha vindo ao mundo.
Agradecidas as informações que a mulherzinha prestou, retirei-me,
formulando uma opinião acerca do que acabava de ouvir. O caso parece
extremamente irrisório e, seriamente, não o teria acreditado se aquela
criatura não merecesse a máxima confiança por ser sincera e verdadeira
e não fosse corroborado por outras que o contaram, empregando as
mesmas palavras e citando os mesmos factos.
Entretanto, é minha opinião que se trata duma premeditada
especulação financeira, cuja fonte de receita existe nas entranhas da
serra, em qualquer manancial de águas minerais que recentemente tenha
descoberto algum indivíduo astucioso que, à sombra da religião, quer
transformar a serra de Aire numa estância miraculosa como a velha
Lourdes.
As autoridades já tomaram conta do caso, e, se ainda o ignoram,
servir-lhe-á o comentário de aviso.
Doc. 4 1917-07-23