316 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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freguesia de Fátima, na companhia dos meus primos Francisco Marto e
Jacinta Marto; depois de rezarmos o terço, como de costume,
começámos a brincar, fazendo um muro à volta duma moita, quando
vimos um relâmpago para o lado do nascente, e, receando que viesse
trovoada, embora estivesse bom tempo, eu disse ao Francisco que era
melhor irmos para casa recolher o gado quando chegámos ao meio da
fazenda, deu outro relâmpago, e, dois passos adiante, vimos em cima
duma carrasqueira, que teria um metro de altura aproximadamente, uma
Senhora muito formosa, com aparências de nova, talvez de dezoito a
vinte e dois anos, envolta num clarão mais brilhante que o sol. Ficámos
muito assustados por vermos aquele resplendor que a envolvia, mas a
Senhora a meia voz, mas bem inteligível, disse-nos: “Não tenham medo,
porque eu não vos faço mal”. Eu perguntei-lhe: “donde é Vossemecê?”
ao que ela respondeu: – “Eu sou do Céu” – “O que é que Vossemecê
me quer?” Ela respondeu: – “Quero que venhas aqui durante seis meses,
e no fim te direi o que quero”. Perguntei-lhe pela Maria, do José das
Neves, e ela disse-me que estava no céu; perguntei-lhe pela Amélia, e
disse-me que estava no purgatório. Se me disse mais alguma coisa neste
mês, não me lembro. Nisto, desapareceu, subindo muito alto para o
lado do nascente”.
–“Como estava vestida a Senhora?”. Respondeu: “Estava vestida de
branco, coberta desde a cabeça até à extremidade do vestido com um
manto galoado a ouro, preso com um cordão dourado, terminado por
uma borla também dourada, nada tendo sobre a cabeça além do manto;
as mangas do vestido chegavam até às mãos postas à altura do peito e
donde pendiam umas contas brancas, terminadas por uma cruz também
branca; parece-me que não vinha descalça, mas não posso determinar
bem porque pousava sobre folhas envoltas em luz e porque não reparei
bem nos pés; via-se um pouco das orelhas, mas não posso precisar se
tinha brincos ou não, parecendo-me contudo que tinha um fiozinho de
ouro”.
– “Qual era a tua idade e a dos teus primos nessa ocasião?”.
Respondeu: – “Eu nesse tempo tinha dez anos, o Francisco nove e a
Jacinta seis2”.
– “Os teus primos também viram e falaram com essa Senhora?”.
Disse: – “Os meus primos não fizeram perguntas, mas a Jacinta dizia tê-
-la ouvido e o Francisco via-a, mas não a ouvia”.
2 Jacinta tinha já sete anos.