312 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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dizer por fora, que Nossa Senhora te aparece e a mim não me dizes
nada?” A pequena respondeu: “Então a minha mãe queria-me bater!”
Depois perguntou à filha que tamanho a Senhora tinha. Ela disse que a
comparava com uma menina dali de quinze anos. Era de uma beleza tal
que nunca tinha visto igual. Um sacerdote de longe pediu licença ao pai
para falar à filha, e ele disse que não consentia, porque não acreditava
nas aparições e davam cabo da filha, que estava ao pé do pai muito
sucumbida. Ouviu dizer que por fim sempre tinha conseguido falar-lhe.
Depois o depoente dirigiu-se com o pai a casa de uma tia dele, de nome
Teresa, com quem queria falar, o qual o acompanhou para lhe indicar
onde ela morava. A tia perguntou-lhe se tinha visto alguma coisa na
Cova da Iria. Respondeu que não tinha visto senão uma borboleta branca,
ao que ela disse: “Isso há por aí muitas; depois senhor Manuel”
acrescentou ela, “que será de nós?”. “Porquê?” perguntou o depoente.
“Porque passaram por aqui pessoas fazendo os seus comentários,
ameaçando e dizendo que os pequenos e as famílias precisavam de ser
processados, porque andavam a enganar o povo. O depoente disse-lhe
desta maneira: “esteja descansada, porque se for obra de Deus ou de
Nossa Senhora, não há razão para se assustarem, porque nada havia
nem podia haver contra ela”. O pai estava um pouco exaltado e por isso
não lhe falou em mais nada.
No dia treze do mês de outubro quando saiu de Boleiros com outras
pessoas, começou a chover. A irmã estava com medo de não voltar,
porque diziam que lançavam bombas, mas ele sossegou-a dizendo que
se fosse Nossa Senhora que ali aparecia, não lhe sucederia mal algum,
pois Nossa Senhora não o havia de consentir. A chuva era muita e o
vento soprava com força de maneira que se molhou bastante apesar de
levar chapéu de chuva. Por isso quando chegou ao pé da igreja paroquial
foi a casa de uma prima e enxugou-se. A certa altura da conversa que
teve com ela, disse-lhe: “Naturalmente as crianças não vão lá com esta
chuva.” – “Vão, disse ela, nem que chova a potes”. Muitas pessoas
estavam aflitas por causa dos animais que as tinham transportado, mas
não consta que lhes sucedesse mal por causa da chuva. Tendo passado
a chuva, cerca da uma hora, dirigiu-se para o local e perto da estrada
encontrou um sacerdote de Penacova, que lhe perguntou onde era o
local da aparição, indicando-lhe o depoente o ponto onde se via uma
névoa, um fumozinho, bastante denso, que não estranhou por julgar que
era incenso queimado em honra de Nossa Senhora, ficando depois
admirado quando lhe disseram que não havia lá fumo nenhum, que não