304 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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vestidos, uns véus e umas grinaldas. A mãe da Lúcia foi com as crianças.
Mas, como ia muito povo, perdeu-as de vista. Na Cova da Iria furou e
ficou mesmo ao pé delas. Como diziam que as matavam, que as faziam
em postas, e como por outro lado ficava com tanta pena de tudo acabar
e não ver nada, resolveu ir. As crianças diziam a hora em que se dava a
aparição e queriam ir para estar a essa hora. Da última vez demoraram-
-se um quarto de hora junto da azinheira antes de começar a aparição.
Estavam todos três de pé. A mãe da Jacinta estava perto. O povo dizia
por trás que não haveria nada, porque ia a passar a hora e não se estava
dando nada de extraordinário. Todos três a um tempo deram um grito,
um ai! A Lúcia disse: “Lá vem ela! Calem-se que já deu um relâmpago”.
Tinha estado a chover toda a manhã. A azinheira estava enfeitada com
fitas e rosas, quase não se via nada dela.
Depois a Lúcia disse: “Já cá está”. Falava alto. A mãe não via nada.
Só notou o mesmo cheiro do raminho dos Valinhos, quando a filha disse:
“Já cá está!” A Lúcia perguntou: “O que me quer hoje?” Calou-se por
um pouco e em seguida parece que lhe pediu um milagre para que todo
aquele povo acreditasse. Depois ficou outra vez calada. Daí a momentos
disse-lhe que tinha muitos pedidos de muitos doentes para lhe fazer. Ela
estava de pé, de mãos postas, voltada para a azinheira. As outras estavam
na mesma posição. A Jacinta ficava no meio. As outras duas crianças
não diziam nada. A Lúcia de vez em quando ia para levantar os olhos e
baixava-os logo, e perguntando-lhe o senhor Prior mais tarde porque
fazia isso, disse que era porque cegava. Estavam as duas meninas vestidas
com um vestido azul claro e um véu branco e tinham na cabeça uma
grinalda de flores brancas artificiais de papel. Durou tudo pouco tempo.
A Lúcia por fim disse: “Lá vai ela, lá vai ela!... Veem-na?... Olhem para
acolá!”, apontando com o braço na direção do nascente para onde
estava e esteve sempre voltada durante todo o tempo. Depois,
naturalmente quando a perdeu de vista, voltou as costas para a azinheira
e dirigindo-se ao povo que estava atrás disse: “Olhem que Nossa Senhora
disse que se emendassem de ofender a Deus, que já estava muito
ofendido e que a guerra ia acabar”. E a cunhada Olímpia disse: “Ó
Lúcia, então tu não pediste a Nossa Senhora que fizesse um milagre
para todo o povo acreditar?” A isto a Lúcia respondeu: “Então ainda
querem maior milagre do que é a guerra acabar?”. Disse mais a Lúcia
que Nossa Senhora tinha dito que fizessem ali uma capelinha, que ela
era a Senhora do Rosário, que a guerra ia acabar logo que chegasse ao
Céu. Tornou-se a virar e repetiu: “Já lá está!... Veem-na?... Já lá vai a