294 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
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descer as escadas da varanda e a subir para a charrete em que tinha
vindo, deu uma volta à igreja e fugiu para Vila Nova de Ourém. O pai da
Jacinta seguiu então para a Cova da Iria tendo ficado admirado da partida
do administrador. Na Cova da Iria, depois de falar com várias pessoas,
ouviu perfeitamente um estrondo seguido de poeira e nevoeiro. O povo
fugiu. Quase todas as pessoas tiraram os chapéus, gritaram por Nossa
Senhora e ficaram muito contentes, dizendo que tinham roubado as
crianças, é verdade, mas que Nossa Senhora se tinha manifestado. Viu
também uma espécie de globo luminoso girando nas nuvens. Parecia
haver uma névoa em volta da carrasqueira, depois do estrondo. O povo
queixava-se não só do administrador, como do senhor Prior, dizendo
que ele também tinha culpa. O tio da Lúcia, António da Silva5, nesse dia
à tarde, queria ir pedir satisfações ao senhor Prior, julgando-o culpado,
mas não apareceu. O pai da Jacinta procurou o senhor Prior, supondo
que ele sabia alguma coisa a respeito das crianças. Voltou depois com o
cunhado para casa. O povo continuava a falar contra o senhor Prior,
afirmando que ele é que tinha a culpa do roubo das crianças. O
administrador trouxe os pequenos na quarta-feira, dia 15, depois da
Missa, cerca das onze horas. No sábado, onze, tinham sido chamados
a Ourém os pais de Lúcia e de Jacinta, indo só os pais e a Lúcia. Primeiro
chamaram a Lúcia e os pais. Depois chamaram o pai da Jacinta. O pai
respondeu que a não trouxera, porque ela, sendo tão pequena, não
podia ir a pé, nem sabia ir de burra. Replicou o administrador: “Então
desobedece?!”. “Não, porque aqui estou”, acentuou Manuel Marto.
Mais tarde, quando as veio trazer a Fátima, disse-lhe que já nesse dia
tinha tido tenção de prender as crianças. Logo que chegou levou as
crianças a casa do senhor Prior. Declarou que acusavam o regedor e o
senhor Prior do rapto das crianças, mas que só ele tinha a culpa, que
podiam perguntar às crianças, se as tinham tratado mal, e que já não
queria saber de nada, que elas podiam ir ao local, quantas vezes
quisessem. O que é certo porém, é que pelo caminho, no regresso de
Ourém, já tinha dito às crianças que tornaria a prendê-las se fossem
outra vez à Cova da Iria.
Quando o administrador tomou a direção de Ourém, a Lúcia e a
Jacinta disseram-lhe que a Cova da Iria não era para aquele lado,
retorquindo ele nestes termos: “levo-as a casa do senhor Prior de Ourém
5 Foi casado em primeiras núpcias, com Teresa de Jesus, irmã de António dos
Santos, pai de Lúcia.