282 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
O – Eu torno a dizer que não tenho a intenção de agredir
ninguém, nem de molestar nas suas crenças, nem nas suas superstições
de quem quer que seja.
Eu simplesmente quero chamar a atenção do Governo para que este
assunto seja ponderado, e que se lhe dedique a atenção que ele realmente
merece.
E posso afirmar por conhecimento que tenho, visto pertencer à região,
que inicialmente na Fátima havia um ou dois indivíduos que exerciam o
ofício de curandeiros, ofício que o Governo vai permitindo, mas para o
qual deve olhar com atenção.
Esse exercício de curandeiro transformou-se em ação quase
milagrosa, por indicação ou antes por instigação de terceiras pessoas.
Foi-se avolumando esta superstição a ponto tal de se reunir em volta
de um desses curandeiros uma romaria quase que impulsionada por
sugestões alheias, e assim esse curandeiro, foi adquirindo, por assim
dizer, um poder de ação medicamentosa, quase sobrenatural, sem no
entanto possuir a consagração, nem os conhecimentos das faculdades
científicas.
Depois o facto transformou-se em caráter religioso e esse curandeiro,
penso que começou a dizer que a sua ação benéfica sobre os doentes
que a ele acorriam provinha da presença de uma certa imagem, que ele
possuía e que estava junto da sua habitação.
Mais tarde o curandeiro desaparece do lugar e a imagem toma foros
de milagrosa e passa a ter a influência que o curandeiro até ali tinha.
Não sei o destino que teve o curandeiro, mas o que é facto é que um
ou dois anos depois, num belo dia previamente anunciado, faz-se uma
romaria ao planalto de Fátima, provocada não se sabe por quem, e
instigada não se sabe por quem, para prestar homenagem à mesma
imagem, para a qual já se tinha construído uma capela, e então começou
toda a gente correndo para a água de uma lagoa.
Atualmente a superstição já está de posse de muita gente que vem
de muitos pontos para ver o milagre, porquanto até se diz que nesse dia
dança o sol.
A água da lagoa, por determinação do subdelegado foi classificada
de água pútrida e mandada secar; mas para não perderem a sua
qualidade milagrosa, abriram um poço com 15 metros de profundidade.
Nele aparece a água na época das chuvas que as recebe por estar
aberto, e é com essa água que se fazem as curas milagrosas.
Ora chamo a atenção de quem para este assunto deve olhar.
Aparte do Sr. Vicente Ramos.