271
VI
O ESCÂNDALO DAS TABERNAS E VENDAS
AMBULANTES
O célebre escritor francês convertido Huysmans3, no admirável livro
“Lourdes”, demonstra que a serpente maldita, não podendo vingar-se
por outra forma daquela que lhe esmagou a cabeça com o seu pé virginal,
empenha-se com todo o ardor em estampar a nota do feio e do reles em
todas as obras de arte e em todas as manifestações destinadas a honrá-
-la.
Em Fátima, logo de princípio se manifestou claramente essa guerra
indireta do demónio, a pior de todas, à obra da Virgem.
E os instrumentos dessa guerra – triste é dizê-lo – não são ímpios ou
descrentes, o que não seria para estranhar, mas pessoas de sentimentos
cristãos que aproveitam o ensejo para explorarem comercialmente as
aparições. Assim, pouco a pouco, têm-se construído próximo do local
algumas tabernas, que põem uma nota triste e sobremodo desagradável
em todo aquele formoso cenário. Nada pode ser mais contrário à
vontade de Nossa Senhora do que essa profusão de lugares que são
para tantas criaturas humanas a ocasião de se entregarem à prática de
um dos vícios mais hediondos e repugnantes. Quantas transgressões da
lei de Deus se cometem cada dia nesses antros malditos, que são a
causa da desgraça e da miséria de tantas famílias! Homens e mulheres,
em grande número, colocados em filas ao longo dos atalhos que vão da
estrada até junto da capela, ou dispersos por vários sítios próximos,
vendem toda a espécie de comestíveis e bebidas, convertendo aquela
estância santificada pela presença da Rainha do Céu num autêntico arraial,
ou pior do que isso, numa verdadeira feira.
Loreto e Lourdes, para não falar de outras terras igualmente visitadas
pela augusta Mãe de Deus, são hoje centros de exploração mundial, em
que assentaram arraiais, numerosos judeus e incrédulos que contribuem
em larga escala para descristianizar a população daquelas cidades outrora
tão florescentes sob o ponto de vista religioso.
A autoridade eclesiástica tem diligenciado pôr cobro a semelhante
profanação, mas com pouco resultado. O único meio eficaz de o
conseguir seria resolverem todos os peregrinos abster-se de comprar o
que quer que fosse aos vendedores ambulantes e nas tabernas construídas
3 Joris-Karl Huysmans, escritor francês (1848-1907).
Doc. 73 1923-03-a.18