24 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
Aliás, a sua figura é altamente considerada, também no
seu itinerário vocacional rumo à profissão religiosa, numa linguagem
encomiástica que parece esquecer a necessária objetividade de um
relatório. Consideradas foram ainda as conversões, as manifestações
de fé e piedade, as curas extraordinárias e a difusão do culto de Nossa
Senhora de Fátima nos territórios portugueses de aquém e de além-mar
e nos muitos países a que já tinha chegado, assim como a atenção do
papa expressa na audiência aos alunos do Colégio Português de 1929.
A divergência entre o anúncio do imediato fim da I Guerra Mundial no
conteúdo das aparições e a demora na sua concretização – aspeto que
desafiava a credibilidade das aparições – leva o relatório a esmerar-se
na busca de soluções plausíveis. Para ser aprovado pela comissão sofreu,
todavia, uma simplificação, prescindindo de algumas delas. O relatório
procura analisar objetivamente os fenómenos naturais que envolveram
as aparições, nomeadamente a nuvem de fumo que se elevava no local
e o sinal solar predito por Lúcia para se realizar na aparição de outubro.
Relativamente a este último e independentemente da sua natureza, o
relatório defende a sua origem sobrenatural. Por fim, afirma que as suas
considerações finais “não podem deixar de ser inteiramente favoráveis à
realidade das aparições e à origem sobrenatural e divina das mesmas
aparições, assim como dos outros sucessos extraordinários que as
acompanharam e que se lhes seguiram” (doc. 120, p. 499).
Na posse do relatório, o bispo de Leiria não se pronunciou de
imediato. Teve tempo para refletir antes de publicar a carta pastoral de
13 de outubro de 1930. Depois de um conjunto de considerações, que
historiam os acontecimentos e justificam a sua credibilidade, D. José
Alves Correia da Silva entendeu por bem “declarar como dignas de
crédito às visões das crianças na Cova de Iria, […] nos dias 13 de
maio a outubro de 1917” e “permitir oficialmente o culto de Nossa
Senhora de Fátima” (doc. 133, p. 552). Era o pronunciamento oficial
da autoridade eclesiástica. No dizer do jornal A Guarda, um dos que
noticiaram a oficialização das aparições, depois da prudência inicial da
Igreja, “a devoção venceu as determinações episcopais” (doc. 128, p.
560).
A mensagem e o culto de Nossa Senhora de Fátima adquiriam assim
uma base mais sólida para a sua difusão. A unidade que o catolicismo
português reclamava no rescaldo do confronto com a república e no
quadro de recomposição proporcionado pelo Concílio Plenário
Português podia gravitar em torno de Fátima. Afinal, nas palavras do P.
Manuel Pereira dos Reis em 1929, “Fátima é no dia de hoje o mais