256 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
pedindo o terço. Parece-me ser este o primeiro ministro da Igreja que
rezou em comum naquele recinto bendito.
O dia 13 de outubro acorda como um dia de pesada invernia, embora
a chuva caia com lentidão. Durante toda a manhã chove sem cessar. Os
caminhos e estradas vão repletos de gente que vindas de longes terras
não faziam conta que chovesse em virtude de haver muitos meses que
nem uma pinga caía. Chegados ao local iam acendendo fogueiras até
que se aproximasse a hora.
Ao lugar da Chainça, que dista uma légua, foram ficar muitas pessoas
entre elas dois senhores, um sr. Ferreira, de Leiria e outro de ao pé das
Caldas, que dizem ser padre e dr. No dia seguinte, como chovesse
muito e não estando acostumados ao rigor do tempo, não podiam seguir
viagem demais não tendo com que se resguardar da água.
Não havia quem emprestasse guarda-chuvas porque os que havia
eram poucos para as precisões. Eu então peguei num inutilizado e dando-
-lhe um conserto serviu para um e ao outro emprestei o meu, indo sem
ele, chegando também todo a escorrer.
Chega-se o momento da aparição e passa-se o que todo o mundo
sabe. O sol gira em torno de si mesmo e todos que se encontravam
molhados aparecem enxutos como fui eu um deles. Apareceu um sr. de
Leiria a distribuir ilustrações com os retratos das três crianças e de Nossa
Senhora, encarregando-me dum maço apesar de me não conhecer.
Daí para o futuro encontra-se ali sempre um movimento de vai-vem
de gente dominada pela fé: uns pedindo favores e outros agradecendo
graças concedidas. Vem a gripe pneunómica que assolou o país e aí
acorrem os crentes formando procissões nas suas terras, indo através
das serras pedregulhentas e das charnecas desertas, altas horas da noite,
debaixo dos maiores vendavais pedir a essa Virgem consoladora dos
aflitos, proteção e misericórdia. A fé vai aumentando e de toda a parte
se ouvem afamar os milagres.
Eu, apesar de tudo continuava a descrer, seguindo a prudência da
Santa Igreja.
Havia 12 anos que eu padecia do estômago; vomitava tudo que comia.
Consulto os melhores médicos com a esperança de me curar por meio
da medicina, mas debalde o faço... Estou desenganado mas restam-me
ainda os hospitais de Lisboa como único recurso. Dirijo-me ao hospital
de S. José, sou observado pelo sr. dr. Damas Mora, diretor do Banco
do mesmo hospital. Como o meu estado fosse pouco satisfatório, o
mesmo sr. mandou-me baixar ao hospital do Desterro onde me operou
a 18 de dezembro de 1917, tendo como ajudantes (ainda que não me