240 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
seus apóstolos e pelos seus santos – são outras tantas provas da sua
origem e assistência divinas.
O milagre, de si raro, é um sinal sensível, excedendo, absoluta e
relativamente, as forças da natureza visível ou invisível – não podendo,
por consequência, ser atribuído senão a DEUS.
Por exemplo: a constância dos mártires em todos os séculos e idades
é superior às leis morais; a ressurreição de um morto derroga as leis da
ordem física, assim como as profecias sobre os futuros livres e
contingentes não se explicam pelas leis intelectuais.
Para que um facto da ordem física, moral ou intelectual seja miraculoso
– não basta ter a Deus por autor. Não são milagres, no sentido rigoroso
da palavra, a criação do mundo, a criação das almas ou ainda os efeitos
sobrenaturais dos Sacramentos, porque todos estes factos – embora
produzidos diretamente por Deus – são fenómenos naturais, não
excedendo a ordem natural.
Numa palavra, o milagre há de distinguir-se de tal maneira das forças
da natureza criadas que, ao presenciá-lo, possamos dizer como os
Egípcios à vista dos milagres de Moisés – está aqui o dedo de Deus!10
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E poderá Deus ir contra as leis infinitamente sábias que impôs aos
seres?
Há leis, fundadas sobre a própria essência das coisas – e, como tais,
imutáveis, absolutas, as quais o próprio Deus não pode abrogar. São
desta espécie as leis matemáticas e geométricas: repugna um círculo
quadrado, como repugna que a inteligência fique indiferente perante a
evidência percebida.
Mas ao lado dessas leis necessárias e essenciais há a considerar as
leis físicas cujo caráter é contingente, isto é, não repugna supôr a sua
não existência, mudança ou modificação por imposição de ordem
superior.
Todas as maravilhas da indústria humana consistem precisamente em
modificar as leis da natureza, dominá-las ou dirigir o seu curso.
10 10 Ex VIII, 19.