164 DCF - Seleção de documentos (1917-1930)
]^_`bd e^ ^gh^ie^_ jkl `im^ioqd ]d_ g^`g rdk]_`edg k^g^gs tu dg g`il`gvw
perguntava eu triunfante. “Ilusão, sugestão”, etc. Quem falava eram
cristãos e praticantes, não havia da sua parte a menor má vontade. Mas
eles ainda não tinham ido falar com os pequenos. Partimos às 10 da
manhã de carruagem. Chegámos perto da 1 hora. Lá está o altar tosco,
as lâmpadas de lata, muitas flores; quem chega junta o seu ramo ao
monte. O que resta da carrasqueira, um tronco raso ao chão, está
resguardado por pedras, e nos intervalos destas, ardem algumas velas.
Tudo primitivo e duma simplicidade que dispõe bem. Pouca gente. Uma
mulher reza alto o rosário, dizendo as intenções dos mistérios com palavras
lindas. Não se ouve senão rezar pelos nossos soldados, vivos e mortos,
pelas famílias, pela conversão dos pecadores, pela nossa terra. Alguém
me mostra o Francisco e, momentos depois, acabado o rosário, vou ter
com ele. É um pequenito, tem um olhar lindo. Sento-me ao pé dele e
começo a minha conversa: – “Viste Nossa Senhora?” – “Vi”. –“Como
vinha vestida?” – Toda de branco e oiro.” – “E não trazia nada de cor?”
– “Não”. – “E na cabeça?” – “Um manto.” – “E mais nada?” – “Sim,
trazia uma coisa.” – “O quê?” – “Não sei, uma coisa.” – “E via-se o
cabelo?” – “Não”. – “E os olhos de que cor eram?” – “Eram pretos.”
Estas respostas eram dadas com um ar de uma naturalidade enorme,
um pouco arrastadas. Todas as três crianças com quem falei
separadamente, mudam de tom descrevendo o olhar de Nossa Senhora.
Vê-se que foi o que mais as impressionou. A Lúcia diz dos olhos: –
“Eram muito escuros.” – “E o fato?” – “Branco e oiro.” – “Com cinto
de cor?” – “Não, com estrelas de oiro; olhe, tinha uma no peito.” – “E
na cabeça?” – “Um manto e uma coisa, assim...” – “Mas o quê?” –
“Não sei, era assim um açafatico” (um açafatezinho). Eu nem disse a
palavra coroa que me veio logo à ideia; deixar a pequena explicar-se
como sabe, e confesso que achei de apetite a comparação. – “E via-se
o cabelo?” – “Não.” –“Olha, Nossa Senhora estava a rir-se, alegre?” –
“Não, estava séria.” “Zangada?” – “Não, séria.” – “Trazia as contas,
não trazia?” – “Sim, umas contas brancas e quando falava abria as mãos,
assim...”. A pequena tirou as contas da algibeira e explicou o que tinha
visto. A certa altura diz-me que Nossa Senhora tinha muita luz. – “Como
o sol?” – “Mais do que o sol.” Uma senhora que ali estava, diz-lhe: –
“Porque tiveste medo ao princípio? Se eu te aparecesse, tu não fugias.”
– “É que a senhora não me cegava.” Diz que Nossa Senhora pede ao
povo que se emende, que reze muito o terço e faça uma capela a Nossa
Senhora do Rosário. A pequena repete muitas vezes: “O povo não se
emenda, o povo não se emenda...”.