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A pequena Lúcia, aquela a quem a Virgem aparecia, conversava a certa
distância com alguns forasteiros. Esperámos que estes a deixassem e
aproximámo-nos dela. Esta era uma criança dos seus doze anos, de
feições grosseiras e de cor muito macilenta. Estava vestida pobremente,
à moda do campo, tendo ao peito uma pequena flor de papel vermelho
e nas mãos um pequeno cofre, onde tilintavam algumas moedas. Tinham
um ar tristonho e sombrio. Narrou-nos a aparição da Virgem da forma
que já é de todos conhecida. Que a Virgem lhe dissera “que nós tínhamos
ofendido muito a Deus e que nos emendássemos”. “Que fízéssemos ali
uma capelinha e que lhe pusessem o nome da Senhora do Rosário”.
“Que a guerra acabaria em breve”. Perguntando-lhe minha irmã o que
vira ela no sol na ocasião do milagre, respondeu “que vira S. José”.
Perguntei-lhe também se ela não tinha receado que se não desse o milagre
pois que o povo a poderia matar julgando que ela estivesse enganando
todos, disse-me com certa energia “que sabia que o milagre se daria e
que por isso nem em tal perigo tinha pensado”. Disse-nos também que
já tinha anteriormente ouvido contar os milagres da Senhora de Lourdes.
Uma mulher que dizia ser tia dela auxiliava-a algumas vezes nas respostas
e fazia várias considerações sobre um segredo que elas tinham e que a
ninguém o revelavam embora já lhes tivessem feito vários prometimentos
sedutores e até as tivessem ameaçado de que as deitariam a um poço
ou de que as queimariam se elas o não revelassem. Disseram-nos ainda
que as esmolas que recebiam eram para a construção de uma capela e
que dessas esmolas era depositária outra mulher que ali se encontrava.
Informaram-nos também ali que a pequena se encontrava fatigadíssima
com a constante série de perguntas que toda a gente lhe fazia. A referida
pequena, umas vezes me parecia concentrada, outras vezes me parecia
distraída. Devo declarar que a impressão que me deixou não foi boa, ou
foi pelo menos muito diferente da que eu esperava. Uma criança cheia
de lógica, de coêrencia e de perspicácia seria também de recear. Se
apesar dessas aparências estava ali uma criatura escolhida por Deus
para uma tão assombrosa revelação, não posso eu dizê-lo. No regresso,
parámos novamente junto da Igreja da Fátima; ali conseguimos falar à
outra pequena, cujo nome não me recorda. Subiu ao estribo do automóvel
que nos conduzia mas não conseguimos arrancar-lhe uma palavra por
mais diligências que empregámos para esse fim. Tinha esta aspeto muito
jovial e uns olhos expressivos. Devia ter sete ou oito anos de idade. Do
que venho expondo concluo duas coisas que pelos menos aparentemente
brigam uma com a outra. A primeira: se Deus não quisesse mostrar a
todos os que foram ao local das aparições, que eram exatas as revelações
Doc. 32 1917-12-30